Sem rumo nem destino
O Presidente do Governo Regional e do PSD local, José Manuel
Bolieiro, deu, na semana passada, nesse seu estilo pós-barroco de inspiração
naïf, rendilhado e decorativo, uma extensa entrevista ao podcast “Política com
Assinatura”, da jornalista da Antena 1, Natália Carvalho. De entre os vários
temas abordados, o que sobressaiu no spin noticioso do dia foi uma
pergunta estrategicamente colocada sobre o fim do prazo de validade da sua
coligação de governo.
Num tom anticlimático, como quem revela um segredo de
polichinelo, Bolieiro acabou por confirmar aquilo que já todos suspeitávamos e
que, aliás, cada um à sua maneira, Artur Lima e Paulo Estevão já tinham, há
muito, anunciado: o termo dessa ménage à trois de conveniência política
entre centristas, monárquicos e sociais-democratas. A novidade foi tão pouco
surpreendente que o tema acabou arrastado pela enxurrada do aumento dos
combustíveis que o próprio governo de Bolieiro anunciou no dia seguinte, para
exasperação dos especialistas de marketing político, enorme preocupação do
próprio e desespero da carteira de todos nós.
O que surpreende neste epifenómeno político não é a sua
confirmação, mas o timing. A meio de um mandato, quando todos clamam por
uma remodelação que dê novo alento a uma governação caótica e destrutiva,
Bolieiro opta, ao invés, por dar uma machadada final na já ínfima coesão do seu
executivo. Se antes já era difícil discernir um rumo, agora teremos secretários
em roda-viva, cavalgando sem rédea (literalmente, no caso do secretário da
Agricultura), agindo sem nexo, cada um em função do seu próprio ganho político,
em prejuízo de todos nós e dos destinos da região.
Vários comentadores já explicaram a matemática do cálculo
político do presidente do Governo. Aproximando-se o fim do PRR, com uma dívida
galopante, sem fim à vista para a privatização da SATA ou para as guerras na
Saúde, e com a mais do que previsível continuação da curva descendente dos
números do turismo ao longo do verão, culminando num orçamento praticamente
impossível em outubro, José Manuel Bolieiro lança no xadrez político a hipótese
de dissolução, na expectativa de ver quem cai na armadilha. Dizem os corredores
que o faz para apaziguar alguns barões locais do seu partido. Outros veem nesse
divórcio a esperança de uma vitória eleitoral robustecida e amplificada pela
fraca implantação popular da atual oposição socialista.
O que parece é que Bolieiro, que nunca se imaginou
Presidente, já se vê, neste momento, a partir para outros voos, quem sabe, num
qualquer Ministério do Mar ou do Espaço, nesse Terreiro do Paço de
metropolitanas mordomias. Ou, em último recurso, a chamar para junto de si o
Chega, para governar sem altercação nem vergonha por mais um mandato. Algo que,
suspeito, para ele, entre o que está e o que há de vir, seja mais ou menos a
mesma coisa.
O que fica por revelar, para além do momento e do modo exato
da queda do Governo, é como vai reagir o eleitorado a mais este cenário de caos
eleitoral. Que já está toda a gente esgotada com os desvarios deste trio de
incompetência, bairrismo e desnorte é um facto; mas quem vai capitalizar com
isso permanece uma incógnita. Terá o PS capacidade para se impor como
alternativa? Capitalizará o PSD, com o afastamento do CDS e do PPM, conseguindo
uma maioria absoluta, alavancada não só na desconfiança do eleitorado na
liderança dos socialistas, como também no receio dos neo-popular-fascistas do
Chega? Conseguirá o CDS manter-se à custa da bandeira do bairrismo que o seu
líder tanto gosta de agitar? Terá o PPM a esperança vã de preservar uma réstia
de relevância? E para onde irão os votos de BE e PAN, em pleno eclipse de
significância?
Não fosse tudo isto uma parte importante das nossas vidas, e
até seria um jogo interessante de acompanhar. Assim, é apenas triste constatar
como, sem rumo nem destino, nos vamos lenta e perigosamente aproximando do
precipício final.

