quarta-feira, 6 de maio de 2026

Speakers' Corner 83

Sem rumo nem destino

O Presidente do Governo Regional e do PSD local, José Manuel Bolieiro, deu, na semana passada, nesse seu estilo pós-barroco de inspiração naïf, rendilhado e decorativo, uma extensa entrevista ao podcast “Política com Assinatura”, da jornalista da Antena 1, Natália Carvalho. De entre os vários temas abordados, o que sobressaiu no spin noticioso do dia foi uma pergunta estrategicamente colocada sobre o fim do prazo de validade da sua coligação de governo.

Num tom anticlimático, como quem revela um segredo de polichinelo, Bolieiro acabou por confirmar aquilo que já todos suspeitávamos e que, aliás, cada um à sua maneira, Artur Lima e Paulo Estevão já tinham, há muito, anunciado: o termo dessa ménage à trois de conveniência política entre centristas, monárquicos e sociais-democratas. A novidade foi tão pouco surpreendente que o tema acabou arrastado pela enxurrada do aumento dos combustíveis que o próprio governo de Bolieiro anunciou no dia seguinte, para exasperação dos especialistas de marketing político, enorme preocupação do próprio e desespero da carteira de todos nós.

O que surpreende neste epifenómeno político não é a sua confirmação, mas o timing. A meio de um mandato, quando todos clamam por uma remodelação que dê novo alento a uma governação caótica e destrutiva, Bolieiro opta, ao invés, por dar uma machadada final na já ínfima coesão do seu executivo. Se antes já era difícil discernir um rumo, agora teremos secretários em roda-viva, cavalgando sem rédea (literalmente, no caso do secretário da Agricultura), agindo sem nexo, cada um em função do seu próprio ganho político, em prejuízo de todos nós e dos destinos da região.

Vários comentadores já explicaram a matemática do cálculo político do presidente do Governo. Aproximando-se o fim do PRR, com uma dívida galopante, sem fim à vista para a privatização da SATA ou para as guerras na Saúde, e com a mais do que previsível continuação da curva descendente dos números do turismo ao longo do verão, culminando num orçamento praticamente impossível em outubro, José Manuel Bolieiro lança no xadrez político a hipótese de dissolução, na expectativa de ver quem cai na armadilha. Dizem os corredores que o faz para apaziguar alguns barões locais do seu partido. Outros veem nesse divórcio a esperança de uma vitória eleitoral robustecida e amplificada pela fraca implantação popular da atual oposição socialista.

O que parece é que Bolieiro, que nunca se imaginou Presidente, já se vê, neste momento, a partir para outros voos, quem sabe, num qualquer Ministério do Mar ou do Espaço, nesse Terreiro do Paço de metropolitanas mordomias. Ou, em último recurso, a chamar para junto de si o Chega, para governar sem altercação nem vergonha por mais um mandato. Algo que, suspeito, para ele, entre o que está e o que há de vir, seja mais ou menos a mesma coisa.

O que fica por revelar, para além do momento e do modo exato da queda do Governo, é como vai reagir o eleitorado a mais este cenário de caos eleitoral. Que já está toda a gente esgotada com os desvarios deste trio de incompetência, bairrismo e desnorte é um facto; mas quem vai capitalizar com isso permanece uma incógnita. Terá o PS capacidade para se impor como alternativa? Capitalizará o PSD, com o afastamento do CDS e do PPM, conseguindo uma maioria absoluta, alavancada não só na desconfiança do eleitorado na liderança dos socialistas, como também no receio dos neo-popular-fascistas do Chega? Conseguirá o CDS manter-se à custa da bandeira do bairrismo que o seu líder tanto gosta de agitar? Terá o PPM a esperança vã de preservar uma réstia de relevância? E para onde irão os votos de BE e PAN, em pleno eclipse de significância?

Não fosse tudo isto uma parte importante das nossas vidas, e até seria um jogo interessante de acompanhar. Assim, é apenas triste constatar como, sem rumo nem destino, nos vamos lenta e perigosamente aproximando do precipício final.