Memória e
futuro
“At
Flores, in the Azores Sir Richard Grenville lay,” este é o primeiro verso
de The Revenge: A Ballad of the Fleet, de Alfred Lord Tennyson. O
poema relata os acontecimentos da célebre batalha de 1591, travada ao largo da
ilha das Flores, na qual o galeão The Revenge enfrentou, isolado, uma
numerosa armada espanhola, acabando por se afundar após um combate longo e
desigual.
Tennyson, poeta laureado da Inglaterra vitoriana, celebra
nesse poema a bravura estoica perante probabilidades esmagadoras e imortaliza
não apenas a coragem, mas também a aura mítica daquele galeão, que fora
anteriormente comandado pelo lendário Sir Francis Drake. Durante décadas, o
poema foi leitura obrigatória nas escolas inglesas, ajudando a fixar no
imaginário britânico uma certa ideia dos Açores.
Este introito poético surge a propósito de uma petição
apresentada ao Parlamento Regional que propõe a criação, nos Açores, de um
Museu Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática. A iniciativa cidadã
procura afirmar, de forma institucional, a relevância do arquipélago na
história global da navegação e, mais concretamente, na história da arqueologia
subaquática. Com efeito, poucas regiões do mundo concentram um número tão
significativo de naufrágios históricos e, simultaneamente, um percurso tão
marcante nas campanhas arqueológicas dedicadas ao seu estudo. O mar dos Açores
é um verdadeiro arquivo submerso da expansão marítima e das rotas atlânticas.
Curiosamente, também por estes dias foi notícia a intenção
do autarca da Ribeira Grande de recuperar um antigo projeto de criação de um
Museu da Aviação dos Açores, a erguer nas ruínas do histórico Campo de Santana,
popularmente conhecido como “aerovacas”. Efetivamente, também na história da
aviação nacional e internacional os Açores tiveram um papel determinante, desde
os primeiros voos de travessia atlântica, passando pelas operações associadas
às duas Guerras Mundiais, pelos famosos clippers da Pan Am, até à criação da
SATA. A isto soma-se o papel estratégico do Aeroporto de Santa Maria e, mais
recentemente, as ambições ligadas ao setor aeroespacial, que reforçam o
significado da posição geoestratégica do arquipélago.
Mais do que simples lugares de memória, os museus são
espaços de construção de identidade. São centros de produção de conhecimento e
veículos de disseminação cultural e pedagógica que ajudam a sustentar a
vitalidade intelectual de uma sociedade e a sua consciência histórica.
Nos Açores, infelizmente, a cultura e a preservação da
memória coletiva têm sido, demasiadas vezes, secundarizadas, quando não mesmo
remetidas para um plano de abandono e insuficiência de recursos. O resultado é
que o passado vai-se dissipando lentamente na erosão do tempo e na fragilidade
das intenções.
Falta-nos um compromisso consistente com o conhecimento e
com a valorização plena do que fomos ao longo dos séculos. Em vésperas de
assinalar os seiscentos anos do povoamento, seria oportuno que a região e, em
boa verdade, o próprio país, assumisse uma aposta clara na valorização do seu
património histórico. Criar novas valências museológicas, investir em
programação cultural consistente e apoiar a investigação não é mera despesa, mas
passos essenciais para dignificar o passado e projetar a região no futuro.
Ao contrário do que por vezes se supõe, a História não é um
mero adorno que se convoca para decorar efemérides ou celebrações. É a
argamassa invisível que mantém coesa a identidade de um povo. Quando
devidamente instituídos e apoiados, os museus contribuem para consolidar o
sentimento de pertença e são instrumentos fulcrais de afirmação cultural,
social e até económica.
Num território arquipelágico como os Açores, onde a
distância se faz fronteira e limite, preservar e interpretar a História é uma
forma de afirmar quem somos e o lugar que ocupamos no mundo.
Valorizar a memória não é um custo, é um investimento no
futuro.


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