quinta-feira, 19 de março de 2026

Speakers' Corner 76

Memória e futuro

At Flores, in the Azores Sir Richard Grenville lay,” este é o primeiro verso de The Revenge: A Ballad of the Fleet, de Alfred Lord Tennyson. O poema relata os acontecimentos da célebre batalha de 1591, travada ao largo da ilha das Flores, na qual o galeão The Revenge enfrentou, isolado, uma numerosa armada espanhola, acabando por se afundar após um combate longo e desigual.

Tennyson, poeta laureado da Inglaterra vitoriana, celebra nesse poema a bravura estoica perante probabilidades esmagadoras e imortaliza não apenas a coragem, mas também a aura mítica daquele galeão, que fora anteriormente comandado pelo lendário Sir Francis Drake. Durante décadas, o poema foi leitura obrigatória nas escolas inglesas, ajudando a fixar no imaginário britânico uma certa ideia dos Açores.

Este introito poético surge a propósito de uma petição apresentada ao Parlamento Regional que propõe a criação, nos Açores, de um Museu Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática. A iniciativa cidadã procura afirmar, de forma institucional, a relevância do arquipélago na história global da navegação e, mais concretamente, na história da arqueologia subaquática. Com efeito, poucas regiões do mundo concentram um número tão significativo de naufrágios históricos e, simultaneamente, um percurso tão marcante nas campanhas arqueológicas dedicadas ao seu estudo. O mar dos Açores é um verdadeiro arquivo submerso da expansão marítima e das rotas atlânticas.

Curiosamente, também por estes dias foi notícia a intenção do autarca da Ribeira Grande de recuperar um antigo projeto de criação de um Museu da Aviação dos Açores, a erguer nas ruínas do histórico Campo de Santana, popularmente conhecido como “aerovacas”. Efetivamente, também na história da aviação nacional e internacional os Açores tiveram um papel determinante, desde os primeiros voos de travessia atlântica, passando pelas operações associadas às duas Guerras Mundiais, pelos famosos clippers da Pan Am, até à criação da SATA. A isto soma-se o papel estratégico do Aeroporto de Santa Maria e, mais recentemente, as ambições ligadas ao setor aeroespacial, que reforçam o significado da posição geoestratégica do arquipélago.

Mais do que simples lugares de memória, os museus são espaços de construção de identidade. São centros de produção de conhecimento e veículos de disseminação cultural e pedagógica que ajudam a sustentar a vitalidade intelectual de uma sociedade e a sua consciência histórica.

Nos Açores, infelizmente, a cultura e a preservação da memória coletiva têm sido, demasiadas vezes, secundarizadas, quando não mesmo remetidas para um plano de abandono e insuficiência de recursos. O resultado é que o passado vai-se dissipando lentamente na erosão do tempo e na fragilidade das intenções.

Falta-nos um compromisso consistente com o conhecimento e com a valorização plena do que fomos ao longo dos séculos. Em vésperas de assinalar os seiscentos anos do povoamento, seria oportuno que a região e, em boa verdade, o próprio país, assumisse uma aposta clara na valorização do seu património histórico. Criar novas valências museológicas, investir em programação cultural consistente e apoiar a investigação não é mera despesa, mas passos essenciais para dignificar o passado e projetar a região no futuro.

Ao contrário do que por vezes se supõe, a História não é um mero adorno que se convoca para decorar efemérides ou celebrações. É a argamassa invisível que mantém coesa a identidade de um povo. Quando devidamente instituídos e apoiados, os museus contribuem para consolidar o sentimento de pertença e são instrumentos fulcrais de afirmação cultural, social e até económica.

Num território arquipelágico como os Açores, onde a distância se faz fronteira e limite, preservar e interpretar a História é uma forma de afirmar quem somos e o lugar que ocupamos no mundo.

Valorizar a memória não é um custo, é um investimento no futuro.

 


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