A tentação de proibir
Recentemente, o neurocientista Jared Horvath apresentou
perante o Senado americano os resultados de um estudo que sugerem um possível
declínio cognitivo nas gerações mais novas. A investigação aponta para que a
chamada Geração Z, nascida entre 1997 e 2012, apresenta, comparada com gerações
anteriores, desempenhos inferiores em indicadores como literacia, numeracia,
atenção e raciocínio.
Horvath alertou para o que considera ser o fim do chamado Flynn
effect, conceito formulado em 1982 pelo psicólogo James Flynn, que
demonstrou que, durante grande parte do século XX, melhorias na nutrição, na
saúde pública, na escolaridade e nas condições gerais de vida fizeram aumentar
consistentemente os resultados médios dos testes de QI de geração para geração.
Agora, pela primeira vez desde que existem medições sistemáticas, podemos estar
a inverter essa tendência positiva.
A Geração Z poderá ser a primeira geração moderna a pontuar
abaixo das anteriores em dimensões centrais como atenção, memória e resolução
de problemas. Entre as possíveis explicações para este fenómeno, os
especialistas destacam o papel das tecnologias digitais na nossa vida:
exposição constante a ecrãs, consumo contínuo de conteúdos curtos,
“doomscrolling”, leitura fragmentada, etc. Jovens que alternam frequentemente
entre dispositivos e tarefas mostram maiores dificuldades de atenção sustentada
e pior capacidade de filtrar informação. Até a simples verificação do telemóvel
durante atividades de aprendizagem pode reduzir significativamente a retenção
de memória, interferindo na consolidação de aprendizagens e conhecimentos.
Mas o fenómeno em si é complexo, e os dados variam de país
para país. A tecnologia não atua isoladamente, cruza-se com transformações
educativas, alterações nos padrões de sono, menores hábitos de leitura e outras
mudanças culturais profundas. E reduzir o problema apenas às redes sociais é
manifestamente redutor. No entanto, em vez de investir na literacia digital, na
regulação pedagógica do uso de ecrãs nas escolas e na promoção de competências
de autorregulação, a resposta política inclina-se invariavelmente para a via
mais fácil: a proibição.
Na semana passada, a Assembleia da República aprovou na
generalidade uma proposta do PSD para restringir o acesso de menores de 16 anos
a redes sociais, focando-se especificamente nestas plataformas, e não no uso
global da tecnologia ou na reorganização dos contextos educativos e sociais
para atacar o problema.
A tentação de proibir é sempre mais forte e pode produzir um
efeito simbólico imediato, mas dificilmente resolverá as causas estruturais no
fundo desta questão. Se a dificuldade está na fragmentação da atenção, na
incapacidade de leitura profunda ou na gestão do tempo, a resposta terá de
passar por escolas mais exigentes, currículos adaptados à realidade digital e
capacitação do espírito crítico e da autonomia pessoal dos jovens desde tenra
idade, em vez da simples proibição do acesso.
Mas, o que é ainda mais grave e preocupante nesta proposta
legislativa é o método avançado para fazer cumprir a restrição: a verificação
da idade através da Chave Móvel Digital. A autenticação tornar-se-á obrigatória
para todos os utilizadores. Sem exceção. Isto levanta sérias questões de
proporcionalidade, privacidade e liberdade individual. Para, alegadamente,
proteger os jovens, normaliza-se um sistema de identificação obrigatório e
universal que aprisiona ainda mais o cidadão na rede de malha fina dos controlos
do Estado.
Se existem indícios de declínio cognitivo, o problema merece
estudo abrangente e políticas públicas robustas. Mas enfrentar um problema tão
complexo apenas com medidas autoritárias é fugir à essência do mesmo. A solução
não está em proibir, desligando a geração mais nova do mundo digital, mas antes
em capacitá-la para o habitar com espírito crítico, disciplina intelectual e,
acima de tudo, responsabilidade individual, que é, afinal, a raiz primeira de
todas as liberdades.

