quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Speakers' Corner 73

O tributo autonómico

Na semana passada, no auditório da Biblioteca Pública de Ponta Delgada, realizou-se, pela mão do sempre prolífico José Andrade, uma conferência subordinada ao tema “50 anos de Autonomia nas Comunidades”. De entre um interessante painel de convidados, destacaram-se as intervenções de João Bosco Mota Amaral e Alberto João Jardim, apelidados, não sem alguma controvérsia, de “pais fundadores” das autonomias regionais, e onde sobressaiu a sempre desassombrada retórica do antigo líder do Governo Regional da Madeira.

Na sua intervenção, Jardim salientou um ponto que julgo merecer reflexão mais atenta nos Açores. Ao recordar a situação da Madeira no pós-Revolução, descreveu uma economia dominada por grandes grupos britânicos, o que exigiu uma reestruturação orientada para a criação de grupos económicos locais, apoiada por investimento da sua diáspora na Venezuela e na África do Sul. Essa estratégia visava construir capital regional e reduzir dependências externas, uma diferença essencial face ao percurso seguido pelo nosso arquipélago.

Nos Açores, a dispersão geográfica e a fragmentação económica dificultaram o surgimento de uma estratégia consistente de autonomia financeira. Cinquenta anos depois, permanecemos excessivamente dependentes de transferências, fundos e compensações, seja da metrópole, seja de Bruxelas, sem conseguir desenvolver uma autonomia económica genuinamente enraizada no potencial endógeno.

Jardim alertou ainda para os riscos da má governação, lembrando que cada erro regional é prontamente instrumentalizado pelo centralismo lisboeta como argumento contra a própria autonomia. Uma advertência elementar, mas demasiadas vezes ignorada entre nós.

Algo que, aliás, a intervenção de José Manuel Bolieiro acabou por ilustrar. Num tom empolado e excessivamente partidário, o Presidente do Governo afirmou-se contra uma “autonomia de mão estendida”, mas dedicou grande parte do seu discurso à ideia de que os Açores são “credores” de um “tributo” que lhes é devido, invocando razões geoestratégicas para justificar compensações financeiras de Portugal, da NATO, dos Estados Unidos e da Europa, numa visão quase fiduciária da autonomia regional.

Ora, se a autonomia se traduz predominantemente numa lógica de compensação externa, corre o risco de se afastar do seu propósito mais profundo: criar capacidade produtiva, gerar riqueza e construir sustentabilidade económica. A autonomia não pode reduzir-se a uma mera cobrança pela presença nacional ou internacional nas ilhas. Deve ser, acima de tudo, um instrumento de crescimento e emancipação.

Não se trata de negar a relevância estratégica dos Açores. Mas transformar essa centralidade em argumento político para reivindicações financeiras arrisca perpetuar dependências e manter-nos vulneráveis aos ditames do próprio centralismo. A prioridade regional deve residir na criação de valor, na inovação, na qualificação e na diversificação económica e não na mera reivindicação de tributo por estarmos onde estamos.

Cinquenta anos após a instituição da Autonomia, impõe-se refletir sobre os desafios estruturais ainda por resolver: a persistente dependência financeira, a ausência de uma estratégia económica própria e a necessidade de verdadeira emancipação regional. A autonomia não se mede apenas em direitos políticos, mas na capacidade de gerar riqueza local e assegurar sustentabilidade futura. Só assim os Açores poderão consolidar uma autonomia real, sólida e duradoura, capaz de resistir a pressões externas e afirmar plenamente a sua identidade, seja económica, política ou civilizacional.

Por fim, não posso deixar de assinalar a ausência, nesta conferência, de vozes representativas dos 24 anos de governação socialista na Região. Esse período, queira-se ou não, integra a história autonómica e merecia enquadramento, análise e respeito, evitando-se uma narrativa sectária sobre o que foi, e é, a Autonomia.

 

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