terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Obrigado, Vamberto Freitas

O estabelecimento de um cânone literário é uma questão sensível e polémica que agita permanentemente os meios culturais, em especial os académicos, dando azo a acesas discussões e, não raro, a diálogos inflamados e emotivas cisões entre contendores apaixonados. Um cânone não é um gesto neutro nem exclusivamente estético; resulta, antes, de um processo cumulativo de participações em que convergem o tempo, a crítica, as instituições e a persistência das obras, bem como — e não menos importante — a resiliência dos autores. Um cânone forma-se quando determinados textos deixam de ser apenas livros e passam a funcionar como referências simbólicas: obras que estruturam a leitura de uma tradição, resistem à erosão do tempo e são continuamente retomadas, discutidas, ensinadas e reeditadas. Este processo implica sempre escolhas e exclusões, revelando relações de poder cultural e disputas de legitimidade, sobretudo quando se trata de literaturas periféricas ou regionais, como é o caso particular dessa coisa em forma de bruma chamada Literatura Açoriana.

Ora, neste affair da literatura açoriana, a questão central, hoje, não é a sua existência — longa, diversa e consistente — mas o seu reconhecimento enquanto corpo literário específico, dotado de coerência histórica, densidade temática e autonomia simbólica. Essa especificidade constrói-se pela continuidade geracional, pela inscrição da insularidade, ou açorianidade, se quisermos, como condição existencial (e não mero cenário ou adereço), por marcas rítmicas e discursivas próprias e por uma consciência crítica da identidade açoriana que recusa tanto o folclore como a autocomplacência. Uma literatura afirma-se plenamente quando é capaz de se pensar a si mesma, interrogando os seus mitos fundadores e a sua posição face ao centro cultural e, no caso concreto de uma literatura de matriz insular atlântica, face a uma dupla periferia: lusitana e europeia, mas também anglo-saxónica e americana.

É neste contexto de uma dicotomia geoestratégica da língua e da literatura que o papel do Professor Vamberto Freitas se torna decisivo, nos últimos anos, na definição dos azimutes próprios da afirmação de uma literatura açoriana e da sua autonomia face aos polos centralizadores da sua existência. Mais do que como académico ou ensaísta isolado, a sua intervenção tem sido a de um mediador persistente entre obras, autores, leitores e instituições. Através de uma crítica literária contínua, exigente e publicamente visível, Vamberto Freitas contribuiu para a legitimação da literatura açoriana como campo de reflexão estética e não como simples variante regional da literatura portuguesa. O seu trabalho ajudou a fixar autores, a estabelecer diálogos entre gerações, e entre margens desse grande mar atlântico, a criar critérios de leitura e a inscrever a literatura açoriana no debate crítico nacional e internacional.

Ao exercer uma crítica regular, informada e assumidamente situada, Vamberto Freitas não se limitou a comentar livros: ajudou a construir uma narrativa de tradição, condição essencial para qualquer cânone. Num espaço marcado pela dispersão geográfica e pela histórica marginalização cultural, essa persistência crítica revelou-se fundamental para transformar produção literária em património simbólico. Assim, o reconhecimento contemporâneo da Literatura Açoriana como género de pleno direito deve-se, em larga medida, a esse trabalho de longa duração, em que a crítica funciona não como ornamento, mas como verdadeiro ato fundador.

No meu caso pessoal, o Professor Vamberto Freitas foi sempre mais do que um leitor atento e um crítico culto, informado e supremamente digno: foi, acima de tudo, um amigo que, através do seu estímulo permanente, me permitiu a afirmação não apenas como cronista, mas como autor. Por tudo isto, nesta data simbólica, o meu profundo e sentido agradecimento.

Vila Franca do Campo, 4 de fevereiro de 2026

in, Revista Filamentos

 

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