quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Speakers' Corner 72

A tentação de proibir

Recentemente, o neurocientista Jared Horvath apresentou perante o Senado americano os resultados de um estudo que sugerem um possível declínio cognitivo nas gerações mais novas. A investigação aponta para que a chamada Geração Z, nascida entre 1997 e 2012, apresenta, comparada com gerações anteriores, desempenhos inferiores em indicadores como literacia, numeracia, atenção e raciocínio.

Horvath alertou para o que considera ser o fim do chamado Flynn effect, conceito formulado em 1982 pelo psicólogo James Flynn, que demonstrou que, durante grande parte do século XX, melhorias na nutrição, na saúde pública, na escolaridade e nas condições gerais de vida fizeram aumentar consistentemente os resultados médios dos testes de QI de geração para geração. Agora, pela primeira vez desde que existem medições sistemáticas, podemos estar a inverter essa tendência positiva.

A Geração Z poderá ser a primeira geração moderna a pontuar abaixo das anteriores em dimensões centrais como atenção, memória e resolução de problemas. Entre as possíveis explicações para este fenómeno, os especialistas destacam o papel das tecnologias digitais na nossa vida: exposição constante a ecrãs, consumo contínuo de conteúdos curtos, “doomscrolling”, leitura fragmentada, etc. Jovens que alternam frequentemente entre dispositivos e tarefas mostram maiores dificuldades de atenção sustentada e pior capacidade de filtrar informação. Até a simples verificação do telemóvel durante atividades de aprendizagem pode reduzir significativamente a retenção de memória, interferindo na consolidação de aprendizagens e conhecimentos.

Mas o fenómeno em si é complexo, e os dados variam de país para país. A tecnologia não atua isoladamente, cruza-se com transformações educativas, alterações nos padrões de sono, menores hábitos de leitura e outras mudanças culturais profundas. E reduzir o problema apenas às redes sociais é manifestamente redutor. No entanto, em vez de investir na literacia digital, na regulação pedagógica do uso de ecrãs nas escolas e na promoção de competências de autorregulação, a resposta política inclina-se invariavelmente para a via mais fácil: a proibição.

Na semana passada, a Assembleia da República aprovou na generalidade uma proposta do PSD para restringir o acesso de menores de 16 anos a redes sociais, focando-se especificamente nestas plataformas, e não no uso global da tecnologia ou na reorganização dos contextos educativos e sociais para atacar o problema.

A tentação de proibir é sempre mais forte e pode produzir um efeito simbólico imediato, mas dificilmente resolverá as causas estruturais no fundo desta questão. Se a dificuldade está na fragmentação da atenção, na incapacidade de leitura profunda ou na gestão do tempo, a resposta terá de passar por escolas mais exigentes, currículos adaptados à realidade digital e capacitação do espírito crítico e da autonomia pessoal dos jovens desde tenra idade, em vez da simples proibição do acesso.

Mas, o que é ainda mais grave e preocupante nesta proposta legislativa é o método avançado para fazer cumprir a restrição: a verificação da idade através da Chave Móvel Digital. A autenticação tornar-se-á obrigatória para todos os utilizadores. Sem exceção. Isto levanta sérias questões de proporcionalidade, privacidade e liberdade individual. Para, alegadamente, proteger os jovens, normaliza-se um sistema de identificação obrigatório e universal que aprisiona ainda mais o cidadão na rede de malha fina dos controlos do Estado.

Se existem indícios de declínio cognitivo, o problema merece estudo abrangente e políticas públicas robustas. Mas enfrentar um problema tão complexo apenas com medidas autoritárias é fugir à essência do mesmo. A solução não está em proibir, desligando a geração mais nova do mundo digital, mas antes em capacitá-la para o habitar com espírito crítico, disciplina intelectual e, acima de tudo, responsabilidade individual, que é, afinal, a raiz primeira de todas as liberdades.

 

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