quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Speakers' Corner 70

Levantados do chão

Na semana que passou, o país continental foi assolado pelos ventos ciclónicos da tempestade Kristin que, na habitual inclemência do clima, causaram uma destruição nunca vista em vastas zonas do litoral centro do país, naquilo a que a Ministra da Administração Interna, com inacreditável frieza, chamou uma “permanente aprendizagem”, sem nunca esclarecer sobre que matéria concreta essa aprendizagem incidia. Poucos dias depois, a libertação de mais de três milhões de páginas dos chamados Epstein Files, entre documentos, fotografias e emails, devastou igualmente o mundo político-mediático global, adensando a nuvem de pó de um sórdido esquema de tráfico de influências e crimes sexuais envolvendo um vasto rol de altas personalidades políticas e financeiras internacionais. Ao mesmo tempo, e quem sabe se por causa disso, Donald Trump prossegue a sua senda de destruição da velha ordem mundial, enquanto a Europa, sem rei nem rumo, se vangloria de celebrar “importantes” acordos comerciais com uma democracia iliberal liderada pelo regime nacional-populista hindu de Narendra Modi, na Índia. Para onde quer que olhemos, há um eco de colapso que parece preencher o ar do tempo com a sua desesperança.

Não imunes a este zeitgeist sombrio, os Açores parecem também sucumbir a uma devastação que já não precisa de comboios atmosféricos para se impor. A privatização da SATA caiu; o turismo entra em recessão; a Ryanair vai-se embora; tetos de escolas desabam; as finanças públicas estão em colapso; até Vasco Matos, treinador celebrado do Santa Clara, é afastado por falta de resultados. Pelo meio, sem protocolo nem pudor, o governo faz-se ver na inauguração de uma capital da cultura para a qual ainda nem sequer garantiu a sua parte do financiamento e, segundo um pedido de esclarecimento do grupo parlamentar do PS, circula por aí um diretor de uma agência de promoção que assina contratos consigo próprio. O que falta, afinal, para isto bater no fundo?

Die bleierne Zeit, literalmente traduzido como “os tempos de chumbo”, é um filme de 1981, realizado por Margarethe von Trotta, que acompanha o percurso de duas irmãs na Alemanha Ocidental dos anos 1970 que respondem de forma radicalmente diferente a um mundo em crise. Uma escolhe o jornalismo e a militância feminista; a outra envereda pela luta armada de extrema-esquerda, acabando presa e morta em circunstâncias que o Estado classifica como suicídio. Mais do que um retrato do terrorismo e da repressão desses anos, o filme é uma reflexão dura sobre consciência, responsabilidade e a recusa de aceitar versões oficiais quando estas servem apenas para encerrar o incómodo da verdade.

Aclamado pela crítica, o filme foi considerado por Ingmar Bergman um dos mais importantes da história. O conceito de “anos de chumbo” ganhou depois vida própria, tornando-se metáfora recorrente para épocas marcadas pela violência e a opressão, pelo medo e pela degradação moral das sociedades.

Olhando o estado do mundo, o horror que avassala o país ou, mais perto de nós, a pré-desgraça que parece contaminar a Região, propagando-se como um vírus, é difícil escapar a esse peso de chumbo, essa bruma espessa que nos cai sobre os ombros, curva a espinha e nos empurra para o chão, como o telhado que voa, a árvore que parte, o teto que desaba. Perante isto, a pergunta já não é apenas o que falhou, mas o que faremos nós quando tudo parece querer derrubar-nos. O que falta para nos levantarmos do chão, como João Mau-Tempo, em Levantado do Chão, um dos romances mais esquecidos de Saramago? Porque, diante da ignomínia que corre à nossa volta, talvez a última forma de humanidade que nos reste, nestes tempos de chumbo, seja reaprender a levantar-nos com a força da dignidade, frente a um mundo que insiste, como uma rajada de vento sem piedade, em atirar-nos para o chão.

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