quarta-feira, 8 de abril de 2026

Speakers' Corner 79

Um dia em Como e outro tiramisù

Estava um dia claro e luminoso, de luz penetrante, sob um céu azul desassombrado, numa frígida manhã de abril. Um vento gélido e incisivo, descendo imperturbado do cume dos Alpes, trespassou-nos o rosto quando descemos os degraus do comboio na quase inconspícua vila de Varenna, vindos, logo cedo, de Milão. Descendo pela Via Imbarcadero, abeirámo-nos do terminal do ferry, com o curioso Hotel Olivedo em frente, a sua forma retangular erguendo-se, impositiva, três andares acima da envolvente, sem outros edifícios a rodeá-lo, de onde partimos para Bellagio, já no coração do Lago de Como.

Rendilhadas ao longo das margens do lago, as pequenas vilas sobem pelas colinas como ramos de vinhas antigas e amadurecidas. Grandes palacetes de nobreza reservada debruçam-se, em colunatas de inspiração romana, sobre as águas transparentes, fazendo ecoar histórias milenares de um passado sem fim. Canteiros de flores cuidadosamente tratados ornamentam jardins pontuados de árvores, limoeiros carregados de frutos reluzentes anunciam a promessa de licores agridoces. Estátuas de deuses e heróis, de nomes já esquecidos, pontuam os caminhos por onde passeamos, lenta e maravilhadamente.

Do ferry, que nos leva numa curta e pachorrenta viagem de poucos minutos, avistamos a fachada imponente do Grand Hotel Villa Serbelloni. Construído em 1850 como prenda de aniversário do conde Frizzoni, de Bérgamo, para a sua mulher, foi mais tarde adquirido pela família Bucher, da Suíça. Também conhecido como Grand Hotel Bellagio, foi, ao longo das décadas, refúgio de grandes nomes da política, das finanças e do espetáculo, como Churchill, J. F. Kennedy, os Rothschild, Clark Gable ou Al Pacino. Já na outra margem do lago, em Laglio, fica a famosa Villa Oleandra, uma mansão do século XVIII mandada construir pela família Stoppani, de Milão, e que George Clooney terá adquirido por dez milhões de dólares aos herdeiros da fortuna da maionese Heinz.

Bellagio recebe-nos com esse encantador charme italiano de ruas serpenteantes que sobem em escadarias estreitas pelas colinas íngremes, esplanadas de mesas engalanadas com toalhas impecavelmente brancas a decorar os passeios, enquanto as clássicas lanchas Vaporina, de madeira envernizada, balançam ao sabor das águas que batem suavemente no cais. Depois de um breve passeio pelas lojas, entre sedas, peles e caxemiras, subimos até à Via Centrale para almoçar no La Fontana: scialatielli alle vongole in bianco con crema di porri profumato al basilico e, para sobremesa, tiramisù.

Nesta viagem fizemos uma prova de tiramisù. Em cada restaurante, pedíamos a famosa sobremesa italiana, inventada, diz a lenda, pela dona de um bordel de Treviso, para revigorar os seus clientes, daí o lânguido nome, “levanta-me”. Com os seus palitos de la reine embebidos em café, creme de ovo, mascarpone e cacau em pó, concluímos que existem infindáveis receitas de tiramisù, todas elas saborosamente magníficas. O debate sobre qual o melhor poderia prolongar-se indefinidamente, tal como gostaríamos que esta viagem também se tivesse prolongado.

No mundo, existem muitos lugares tão ou mais deslumbrantes, mas Bellagio e as suas vilas irmãs, nas margens do Lago de Como, compõem um quadro inigualável que rivaliza, para não dizer que ultrapassa, em beleza e encanto muitos outros lugares, merecendo, por isso, uma visita pelo menos uma vez na vida.

Um dos prazeres de sair dos Açores, aliás, para além do ato em si de deixar a bruma para trás, é perceber que, apesar de toda a sua beleza e encanto, e de toda a retórica que tantas vezes nos eleva a medida absoluta de comparação, os Açores não são, de facto, o melhor ou o mais belo lugar do mundo. E talvez seja precisamente essa compreensão que dá mais valor ao regresso. Não a ilusão falaciosa da nossa superioridade ou excecionalidade, mas a consciência mais justa do lugar que realmente ocupamos no vasto rol das maravilhas do mundo.

 

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