Um dia em Como e outro tiramisù
Estava um dia claro e luminoso, de luz penetrante, sob um
céu azul desassombrado, numa frígida manhã de abril. Um vento gélido e
incisivo, descendo imperturbado do cume dos Alpes, trespassou-nos o rosto
quando descemos os degraus do comboio na quase inconspícua vila de Varenna,
vindos, logo cedo, de Milão. Descendo pela Via Imbarcadero, abeirámo-nos do
terminal do ferry, com o curioso Hotel Olivedo em frente, a sua forma
retangular erguendo-se, impositiva, três andares acima da envolvente, sem
outros edifícios a rodeá-lo, de onde partimos para Bellagio, já no coração do
Lago de Como.
Rendilhadas ao longo das margens do lago, as pequenas vilas
sobem pelas colinas como ramos de vinhas antigas e amadurecidas. Grandes
palacetes de nobreza reservada debruçam-se, em colunatas de inspiração romana,
sobre as águas transparentes, fazendo ecoar histórias milenares de um passado
sem fim. Canteiros de flores cuidadosamente tratados ornamentam jardins
pontuados de árvores, limoeiros carregados de frutos reluzentes anunciam a
promessa de licores agridoces. Estátuas de deuses e heróis, de nomes já
esquecidos, pontuam os caminhos por onde passeamos, lenta e maravilhadamente.
Do ferry, que nos leva numa curta e pachorrenta viagem de
poucos minutos, avistamos a fachada imponente do Grand Hotel Villa Serbelloni.
Construído em 1850 como prenda de aniversário do conde Frizzoni, de Bérgamo,
para a sua mulher, foi mais tarde adquirido pela família Bucher, da Suíça.
Também conhecido como Grand Hotel Bellagio, foi, ao longo das décadas, refúgio
de grandes nomes da política, das finanças e do espetáculo, como Churchill, J.
F. Kennedy, os Rothschild, Clark Gable ou Al Pacino. Já na outra margem do
lago, em Laglio, fica a famosa Villa Oleandra, uma mansão do século XVIII
mandada construir pela família Stoppani, de Milão, e que George Clooney terá
adquirido por dez milhões de dólares aos herdeiros da fortuna da maionese Heinz.
Bellagio recebe-nos com esse encantador charme italiano de
ruas serpenteantes que sobem em escadarias estreitas pelas colinas íngremes,
esplanadas de mesas engalanadas com toalhas impecavelmente brancas a decorar os
passeios, enquanto as clássicas lanchas Vaporina, de madeira envernizada,
balançam ao sabor das águas que batem suavemente no cais. Depois de um breve
passeio pelas lojas, entre sedas, peles e caxemiras, subimos até à Via Centrale
para almoçar no La Fontana: scialatielli alle vongole in bianco con crema di
porri profumato al basilico e, para sobremesa, tiramisù.
Nesta viagem fizemos uma prova de tiramisù. Em cada
restaurante, pedíamos a famosa sobremesa italiana, inventada, diz a lenda, pela
dona de um bordel de Treviso, para revigorar os seus clientes, daí o lânguido
nome, “levanta-me”. Com os seus palitos de la reine embebidos em café, creme de
ovo, mascarpone e cacau em pó, concluímos que existem infindáveis receitas de
tiramisù, todas elas saborosamente magníficas. O debate sobre qual o melhor
poderia prolongar-se indefinidamente, tal como gostaríamos que esta viagem
também se tivesse prolongado.
No mundo, existem muitos lugares tão ou mais deslumbrantes,
mas Bellagio e as suas vilas irmãs, nas margens do Lago de Como, compõem um
quadro inigualável que rivaliza, para não dizer que ultrapassa, em beleza e
encanto muitos outros lugares, merecendo, por isso, uma visita pelo menos uma
vez na vida.
Um dos prazeres de sair dos Açores, aliás, para além do ato
em si de deixar a bruma para trás, é perceber que, apesar de toda a sua beleza
e encanto, e de toda a retórica que tantas vezes nos eleva a medida absoluta de
comparação, os Açores não são, de facto, o melhor ou o mais belo lugar do
mundo. E talvez seja precisamente essa compreensão que dá mais valor ao
regresso. Não a ilusão falaciosa da nossa superioridade ou excecionalidade, mas
a consciência mais justa do lugar que realmente ocupamos no vasto rol das
maravilhas do mundo.


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