quarta-feira, 29 de abril de 2026

Speakers' Corner 82

A retro-autonomia

Há dias, um amigo convidou-me para estar presente num evento em Carcavelos. Entusiasmado, lancei-me nos sites das duas companhias aéreas em busca de preços. A iridescência do online devolve-me valores na ordem dos 400€ e 500€, ida e volta, de um dia para o outro. Para tarifas mais em conta, ainda assim a rondar os 300€, e com viagem de regresso a ocupar um dia inteiro, com escalas na Horta ou em Angra, ambas as companhias obrigam a uma estadia de pelo menos três dias na capital. Já muito foi dito sobre este novo espaço aéreo regional, devolvido ao cartel das companhias de bandeira, ou sobre os dramas do Subsídio Social de Mobilidade e da sua plataforma de desesperança, que obrigam o residente a hipotecar vencimentos para uma ida à metrópole. Mas a verdade, nua e crua, é que este novo modelo resulta num enorme retrocesso na mobilidade da região.

Este fim de semana, o ar aqui em casa foi presenteado com os aromas fétidos de um entupimento no saneamento básico da rua, o que provocou um transvase de águas residuais para uma conduta pluvial que descarrega diretamente no mar. A princípio, julgámos tratar-se da maré ou da famigerada alga que infestou as ilhas, mas cedo percebemos que o problema era, afinal, de origem intestinal humana. O problema, esperamos nós, ficou resolvido na segunda-feira de manhã, com um telefonema para os serviços da Câmara ou, talvez, pelo burburinho que, entretanto, já se tinha instalado nos fóruns do Facebook, que são, hoje em dia, o que faz os políticos mexer. A verdade é que ficámos a perceber que o sistema de saneamento básico da Vila funciona com redundâncias do século passado, à mercê da sorte e da falta de investimento e manutenção. Algo que já nem é um retrocesso, mas um enquistamento crónico do nosso poder autárquico. Entretanto, os dejetos e remanescentes da higiene pessoal continuam ali, no calhau, à espera da maré de lua cheia ou de uma chuvada forte que os leve para o mar. Consta também que o Ilhéu abrirá nesta época balnear, também ele ao sabor da sorte e da maré.

Nas notícias, ontem fez manchete o encerramento definitivo das Termas da Ferraria, dezasseis anos após a sua reabertura, depois de um investimento público de mais de quatro milhões de euros e após seis meses de espera por uma solução para a reabertura da estrada de acesso, encerrada na sequência de uma derrocada. Mais um prego no caixão da falta de dinheiro e estratégia da Secretaria do Turismo e das Obras Públicas. Algo, aliás, amplificado pela notícia do desinvestimento no Torneio de Futebol Pauleta que, por via da redução de verbas, viu a sua dimensão e prestígio seriamente comprometidos. Se o Pauleta se queixa, quem somos nós para chorar o fim dos apoios da DRT à Cultura e ao Desporto? É só mais um retrocesso, como tantos outros.

Mas talvez o maior recuo de todos seja o ressurgir e o alastrar dos incompreensíveis bairrismos entre as ilhas, especialmente entre a Terceira e São Miguel, agora a propósito do malfadado e, diria, assombrado Hospital do Divino Espírito Santo. É difícil compreender a sanha com que certa intelectualidade terceirense se arregimenta contra uma suposta “elite terratenente micaelense” (expressão deles, não minha), que, dizem, pretende prejudicar as oito ilhas com um investimento centralizado numa estrutura hospitalar em Ponta Delgada. Ao ponto de sugerirem, como alternativa, pasme-se, numa espécie de psicologia invertida, a construção de dois hospitais na ilha de São Miguel, a menos de vinte quilómetros um do outro. Este bairrismo cego e desvairado, assente em argumentos arcaicos de um pseudo-feudalismo marxista-leninista, das elites de São Miguel contra o povo dos Açores, é mais do que um recuo. É uma autêntica regressão ao passado mais escuro e opressivo de uma região sem união, cultura e noção de geografia humana.

De recuo em recuo, passamos de uma autonomia progressiva para um novo paradigma – o da retro-autonomia.

 

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