O mundo está perigoso
Era com esta frase dramática que Vasco Pulido Valente, na
sua cáustica ironia, costumava terminar os seus artigos. Os historiadores, essa
velha profissão que Pulido Valente também praticava, dir-nos-ão que o mundo
sempre foi perigoso, tal é a raiz da natureza humana. Já os praticantes da
astrologia ou da cartomancia dirão, por sua vez, que a roda da fortuna é
imparável, fazendo girar os espíritos numa alternância entre a bem-aventurança
e a desgraça.
Hegel chamou-lhe a “espiral dialética da história”.
Marx discerniu aí uma perturbadora dicotomia entre a tragédia e a farsa. Outros
chamar-lhe-ão, simplesmente, o devir, onde nada é permanente, exceto a própria
mudança, como bem ensinou o poeta. A verdade é que a vida nos arrasta nesta
viagem inconstante entre dor e prazer, tristeza e alegria, num movimento
pendular feito de agruras, conquistas e outras qualidades.
Nesse permanente acontecer de que é composto o mundo, Donald
Trump, espécie de cruzamento entre um Mussolini sem farda e um Henry Ford do
betão armado, estrangulado pelo Estreito de Ormuz, enviou o seu acólito
principal, o vice-presidente J.D. Vance, para uma negociação relâmpago com
líderes iranianos em Islamabad. Julgando ter uma mão de ases num jogo de
póquer, Vance foi afinal confrontado com uma partida de xadrez, mais lenta, densa
e imprevisível, recolocando as turbinas do mundo, sedentas do óleo desse velho
Ormuz de Afonso de Albuquerque, num novo impasse.
Antes desse encontro no Paquistão, o polémico
vice-presidente norte-americano fizera escala em Budapeste para apoiar Viktor
Orbán, envolvido numa disputada campanha eleitoral que acabaria por perder.
Numa espécie de “internacional nacionalista”, passe a contradição dos termos,
os líderes do populismo demagógico mundial procuram proteger-se mutuamente,
alheios à clara incoerência de querer internacionalizar um impulso que é, por
definição, patrioteiro, identitário e hostil ao outro.
As eleições húngaras ilustram bem esta irracionalidade da
política atual. A vitória de Péter Magyar foi saudada como um triunfo sobre o
radicalismo, mas quem olhe com atenção para o percurso do vencedor não pode
ficar satisfeito. Saído das fileiras do Fidesz, o partido de Orbán, Magyar
construiu a sua oposição na sequência de um escândalo envolvendo a ex-mulher,
Judit Varga, então ministra da Justiça. A divulgação de uma gravação privada,
feita pelo próprio e tornada pública sem consentimento, expôs não apenas o
caso, mas também um traço perturbador do seu carácter político.
O partido a que se associou, o Tisza, apresenta-se como uma
força conservadora de centro-direita, alinhada com a União Europeia, mas
sustentada num discurso de combate à corrupção e não esconde posições extremadas
em matéria de imigração, nem certos tiques populistas na abordagem à justiça e
ao sistema político. A diferença em relação ao projeto de Orbán parece ser mais
de estilo do que de substância. Como já alguém observou de forma contundente, é
como celebrar uma vitória de Nuno Melo sobre André Ventura.
No entretanto, por cá, também se assiste a sinais desta
alucinação coletiva que atravessa a política global. O Presidente do Governo
Regional dos Açores, José Manuel Bolieiro, tornou-se alvo de chacota pública
pelas suas posições rocambolescas relativamente à Base das Lajes. No seu espaço
de comentário político na TVI, Miguel Sousa Tavares sublinhou como, para
Bolieiro, numa visão do mundo que faz tábua rasa dos princípios que deveriam
reger a ordem internacional e o Estado de direito, pouco importa quem utiliza a
base ou com que finalidade, desde que pague para o fazer. Tornando os Açores no
equivalente a uma meretriz de casa de alterne barata ao serviço do freguês mais
abonado.
Talvez, afinal, não seja o mundo que está perigoso. Talvez
sejamos nós que, de Ormuz às Lajes, vamos aceitando que tudo tenha um preço,
até aquilo que julgávamos não estar à venda.


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