quarta-feira, 15 de abril de 2026

Speakers' Corner 80

O mundo está perigoso

Era com esta frase dramática que Vasco Pulido Valente, na sua cáustica ironia, costumava terminar os seus artigos. Os historiadores, essa velha profissão que Pulido Valente também praticava, dir-nos-ão que o mundo sempre foi perigoso, tal é a raiz da natureza humana. Já os praticantes da astrologia ou da cartomancia dirão, por sua vez, que a roda da fortuna é imparável, fazendo girar os espíritos numa alternância entre a bem-aventurança e a desgraça.

Hegel chamou-lhe a “espiral dialética da história”. Marx discerniu aí uma perturbadora dicotomia entre a tragédia e a farsa. Outros chamar-lhe-ão, simplesmente, o devir, onde nada é permanente, exceto a própria mudança, como bem ensinou o poeta. A verdade é que a vida nos arrasta nesta viagem inconstante entre dor e prazer, tristeza e alegria, num movimento pendular feito de agruras, conquistas e outras qualidades.

Nesse permanente acontecer de que é composto o mundo, Donald Trump, espécie de cruzamento entre um Mussolini sem farda e um Henry Ford do betão armado, estrangulado pelo Estreito de Ormuz, enviou o seu acólito principal, o vice-presidente J.D. Vance, para uma negociação relâmpago com líderes iranianos em Islamabad. Julgando ter uma mão de ases num jogo de póquer, Vance foi afinal confrontado com uma partida de xadrez, mais lenta, densa e imprevisível, recolocando as turbinas do mundo, sedentas do óleo desse velho Ormuz de Afonso de Albuquerque, num novo impasse.

Antes desse encontro no Paquistão, o polémico vice-presidente norte-americano fizera escala em Budapeste para apoiar Viktor Orbán, envolvido numa disputada campanha eleitoral que acabaria por perder. Numa espécie de “internacional nacionalista”, passe a contradição dos termos, os líderes do populismo demagógico mundial procuram proteger-se mutuamente, alheios à clara incoerência de querer internacionalizar um impulso que é, por definição, patrioteiro, identitário e hostil ao outro.

As eleições húngaras ilustram bem esta irracionalidade da política atual. A vitória de Péter Magyar foi saudada como um triunfo sobre o radicalismo, mas quem olhe com atenção para o percurso do vencedor não pode ficar satisfeito. Saído das fileiras do Fidesz, o partido de Orbán, Magyar construiu a sua oposição na sequência de um escândalo envolvendo a ex-mulher, Judit Varga, então ministra da Justiça. A divulgação de uma gravação privada, feita pelo próprio e tornada pública sem consentimento, expôs não apenas o caso, mas também um traço perturbador do seu carácter político.

O partido a que se associou, o Tisza, apresenta-se como uma força conservadora de centro-direita, alinhada com a União Europeia, mas sustentada num discurso de combate à corrupção e não esconde posições extremadas em matéria de imigração, nem certos tiques populistas na abordagem à justiça e ao sistema político. A diferença em relação ao projeto de Orbán parece ser mais de estilo do que de substância. Como já alguém observou de forma contundente, é como celebrar uma vitória de Nuno Melo sobre André Ventura.

No entretanto, por cá, também se assiste a sinais desta alucinação coletiva que atravessa a política global. O Presidente do Governo Regional dos Açores, José Manuel Bolieiro, tornou-se alvo de chacota pública pelas suas posições rocambolescas relativamente à Base das Lajes. No seu espaço de comentário político na TVI, Miguel Sousa Tavares sublinhou como, para Bolieiro, numa visão do mundo que faz tábua rasa dos princípios que deveriam reger a ordem internacional e o Estado de direito, pouco importa quem utiliza a base ou com que finalidade, desde que pague para o fazer. Tornando os Açores no equivalente a uma meretriz de casa de alterne barata ao serviço do freguês mais abonado.

Talvez, afinal, não seja o mundo que está perigoso. Talvez sejamos nós que, de Ormuz às Lajes, vamos aceitando que tudo tenha um preço, até aquilo que julgávamos não estar à venda.

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