A salto e a sonho
Na segunda-feira passada, um recluso da cadeia de Ponta
Delgada, enquanto gozava o seu tempo de pátio, apoiou-se nas paredes do ginásio
e, galgando o muro, saltou por entre os buracos da rede mal remediada que
envolve o estabelecimento, evadindo-se da prisão que o encarcerava. Resvalando,
apressado, pela estrada, alcançou os tetrápodes da avenida e lançou-se
precipitadamente ao mar.
Fugido da prisão, logo se fechou a fronteira da ilha, numa
metáfora brutal da existência insular. Viver numa ilha é tanto horizonte como limite.
E aquilo que não se pode transpor a salto só se consegue alcançar à força de
barco e de sonho, como escreveu Manuel Ferreira.
Pondo de lado a realidade concreta desta história, de
pobreza, precariedade e desinvestimento crónico numa cadeia que já ultrapassou
todos os limites do razoável, até do seu próprio tempo de vida (se bem que,
nestes 50 anos de autonomia, talvez estes sejam exatamente os temas de que
devêssemos falar), o que esta história caricata nos traz é uma metáfora viva da
nossa identidade: um homem que fugiu da prisão para se lançar ao mar e
descobrir que, afinal, era a ilha que o aprisionava.
Algures na primeira metade do século passado, numa altura em
que esta ilha fervilhava de ambição e empreendedorismo privado, com as forças
vivas da cidade de Ponta Delgada, e da ilha no seu todo, fortemente empenhadas
no seu desenvolvimento, fosse na eletrificação, no comércio, no turismo ou em
planos mais vastos, como a linha de caminho-de-ferro que circundaria a ilha ou,
mais tarde, as ligações aéreas que a ligariam ao mundo, um grupo de empresários
e beneméritos, aqueles que alguns hoje, presos nos baús do ressabiamento,
chamam pejorativamente de terratenentes, pretendeu levar a cabo a construção de
um sanatório para tratamento das doenças mentais, tendo para tal desiderato
convidado o ilustre cirurgião Egas Moniz a visitar a ilha.
Reza a lenda que, após um jantar oferecido em sua honra no
final dessa visita e quando questionado acerca da viabilidade de tal
investimento, o famoso médico, não sem alguma ironia, terá respondido que o
melhor seria construir um muro à volta da ilha, suprindo assim todas as suas
necessidades em matéria de sanidade mental. Ou da falta dela, acrescentaria eu.
Esta história sempre me fez rir e, ainda hoje, olhando o
estado da coisa pública, muitas vezes me questiono acerca da sua acutilante
perspicácia.
O facto é que os Açores, ou as suas nove ilhas, de dimensões
e singularidades distintas, são um território hostil e tantas vezes inclemente
com as suas gentes. Há aqui uma rudeza própria, um enclausuramento natural das
esperanças que tem tanto de físico como de mental. A vida faz-se aqui da força
das suas contrariedades, numa luta constante entre os elementos e a própria
natureza das pessoas.
Cinquenta anos depois da instituição da Autonomia consagrada
pela Constituição de 1976, os Açores vivem talvez o período mais difícil da sua
frágil e curta história arquipelágica. Os bairrismos, ou, se quisermos, a luta
fratricida entre São Miguel e Terceira, atingem níveis de estridência como
nunca se viu, num agigantar de ressentimento e violência que põe em causa a
própria integridade do projeto autonómico, com consequências futuras que temo
que os próprios intervenientes, as tão propaladas elites políticas, económicas
e culturais de cada burgo, pareçam não querer enxergar convenientemente.
É neste cenário de dupla insularidade que vos convido a
participar no Congresso da Autonomia, iniciativa cidadã que terá lugar neste
sábado, na Biblioteca Pública de Ponta Delgada, que visa pensar os Açores para
lá dos muros invisíveis que fomos erguendo entre ilhas e entre nós próprios.
Porque há cadeias feitas de pedra e cimento. Mas há outras,
talvez mais duras, feitas de inveja, ressentimento e pequenez. E um povo que
deixa de sonhar com o horizonte acaba inevitavelmente por transformar a ilha numa
prisão.


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