quarta-feira, 27 de maio de 2026

Speakers' Corner 86

Congresso da Autonomia

“Nadar sem braçadeiras.” A resposta, desarmante e com essa acutilância própria da infância, foi dada por um aluno da Escola Novas Rotas a Luís Banrezes, uma das caras do Festival Tremor, um dos mais significativos produtos de exportação não extrativa da região, à pergunta: “o que é a autonomia?”

E a resposta não podia ser mais certeira. Autonomia é o contrário da dependência, seja para pensar, sonhar, agir, escolher, nadar sem braçadeiras ou voar rumo a um futuro melhor. Autonomia é essa maturidade; é liberdade para decidir o rumo da própria vida ou, neste caso específico, o rumo de uma região que se diz autónoma.

No passado sábado, em vésperas do “Dia da Pombinha”, decorreu, na Biblioteca Pública de Ponta Delgada, o Congresso da Autonomia. Um encontro que tive o prazer e a honra de coorganizar com os meus camaradas Nuno Tomé e José San-Bento, no âmbito da iniciativa Compromisso com os Açores. Num intenso dia de reflexão e debate, um vasto conjunto de personalidades oriundas de diferentes ilhas, formações e experiências debateu, juntamente com um público interessado e participativo, os Açores e a sua condição geográfica, social e política, procurando alcançar a sua essência e, acima de tudo, lançar pontes para um futuro melhor para as próximas gerações.

O objetivo deste encontro foi agitar o tão típico marasmo insular, que tantas vezes cobre a opinião livre e o debate franco de ideias como um nevoeiro baixo e espesso que se cola à pele e ao espírito dos açorianos. Longe dos espartilhos institucionais ou ideológicos, e contra todo o tipo de bairrismos ou unanimismos, as opiniões e propostas expressas no Congresso revelaram que é possível pensar os Açores de forma audaciosa, com ambição e projeto e, ao mesmo tempo, de forma abnegada e altruísta.

Melhores salários, maior aposta na ciência e maior capacidade de intervenção nas esferas de decisão nacionais. Aposta na complementaridade e na valorização das potencialidades endógenas e especificidades de cada ilha. Infraestruturas capazes, funcionais, racionais e complementares no contexto arquipelágico. Correto aproveitamento dos fundos disponíveis e investimentos públicos reprodutivos, capazes de alavancar o dinamismo e o potencial exportador do setor privado, mesmo em áreas não imediatamente óbvias, como a cultura ou nichos específicos do setor primário com produtos de maior valor acrescentado, competindo na qualidade em vez da quantidade. Repensar a estrutura do poder, apostando mais no municipalismo e na especialização, potenciando o mercado interno. Promover a criatividade e a diversificação para reter talento, sem que isso signifique a “consanguinidade de ideias”. Ao mesmo tempo, capacitar a região com recursos humanos e inteligência prospetiva que permitam melhores investimentos. Revisão da lei eleitoral, redução do número de deputados e de cargos governativos e uma urgente reforma da Lei das Finanças Regionais.

Estas foram algumas das sugestões deixadas no Congresso da Autonomia pelos mais de 17 especialistas intervenientes, a quem publicamente gostaria de agradecer pela riqueza e pertinência dos seus contributos. Só com políticas públicas robustas, sustentadas no conhecimento e no planeamento, poderemos vencer os desafios do futuro, seja na fixação dos jovens, no combate ao inverno demográfico, na transformação digital ou na ameaça das alterações climáticas.

Não basta fazer discursos de mão estendida. É preciso pensamento, diálogo e ação para legar às novas gerações um futuro de prosperidade em todas as ilhas.

Por último, uma palavra de apreço para o Dr. Mota Amaral, Pedro Nascimento Cabral e Cláudio Almeida que, numa demonstração superior de fair play ideológico, nos honraram com a sua presença. Ao contrário, diga-se, de todas as outras entidades públicas e partidos que, de forma ostensiva e, em alguns casos, deliberada, se fizeram notar pela ausência. A “humildade democrática” prova-se nos gestos, e não nas palavras.

 

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