Congresso da Autonomia
“Nadar sem braçadeiras.” A resposta, desarmante e com essa
acutilância própria da infância, foi dada por um aluno da Escola Novas Rotas a
Luís Banrezes, uma das caras do Festival Tremor, um dos mais significativos
produtos de exportação não extrativa da região, à pergunta: “o que é a
autonomia?”
E a resposta não podia ser mais certeira. Autonomia é o
contrário da dependência, seja para pensar, sonhar, agir, escolher, nadar sem
braçadeiras ou voar rumo a um futuro melhor. Autonomia é essa maturidade; é
liberdade para decidir o rumo da própria vida ou, neste caso específico, o rumo
de uma região que se diz autónoma.
No passado sábado, em vésperas do “Dia da Pombinha”,
decorreu, na Biblioteca Pública de Ponta Delgada, o Congresso da Autonomia. Um
encontro que tive o prazer e a honra de coorganizar com os meus camaradas Nuno
Tomé e José San-Bento, no âmbito da iniciativa Compromisso com os Açores. Num
intenso dia de reflexão e debate, um vasto conjunto de personalidades oriundas
de diferentes ilhas, formações e experiências debateu, juntamente com um
público interessado e participativo, os Açores e a sua condição geográfica,
social e política, procurando alcançar a sua essência e, acima de tudo, lançar
pontes para um futuro melhor para as próximas gerações.
O objetivo deste encontro foi agitar o tão típico marasmo
insular, que tantas vezes cobre a opinião livre e o debate franco de ideias
como um nevoeiro baixo e espesso que se cola à pele e ao espírito dos
açorianos. Longe dos espartilhos institucionais ou ideológicos, e contra todo o
tipo de bairrismos ou unanimismos, as opiniões e propostas expressas no
Congresso revelaram que é possível pensar os Açores de forma audaciosa, com
ambição e projeto e, ao mesmo tempo, de forma abnegada e altruísta.
Melhores salários, maior aposta na ciência e maior
capacidade de intervenção nas esferas de decisão nacionais. Aposta na
complementaridade e na valorização das potencialidades endógenas e
especificidades de cada ilha. Infraestruturas capazes, funcionais, racionais e
complementares no contexto arquipelágico. Correto aproveitamento dos fundos
disponíveis e investimentos públicos reprodutivos, capazes de alavancar o
dinamismo e o potencial exportador do setor privado, mesmo em áreas não
imediatamente óbvias, como a cultura ou nichos específicos do setor primário
com produtos de maior valor acrescentado, competindo na qualidade em vez da
quantidade. Repensar a estrutura do poder, apostando mais no municipalismo e na
especialização, potenciando o mercado interno. Promover a criatividade e a
diversificação para reter talento, sem que isso signifique a “consanguinidade
de ideias”. Ao mesmo tempo, capacitar a região com recursos humanos e
inteligência prospetiva que permitam melhores investimentos. Revisão da lei eleitoral,
redução do número de deputados e de cargos governativos e uma urgente reforma
da Lei das Finanças Regionais.
Estas foram algumas das sugestões deixadas no Congresso da
Autonomia pelos mais de 17 especialistas intervenientes, a quem publicamente
gostaria de agradecer pela riqueza e pertinência dos seus contributos. Só com
políticas públicas robustas, sustentadas no conhecimento e no planeamento,
poderemos vencer os desafios do futuro, seja na fixação dos jovens, no combate
ao inverno demográfico, na transformação digital ou na ameaça das alterações
climáticas.
Não basta fazer discursos de mão estendida. É preciso
pensamento, diálogo e ação para legar às novas gerações um futuro de
prosperidade em todas as ilhas.
Por último, uma palavra de apreço para o Dr. Mota Amaral,
Pedro Nascimento Cabral e Cláudio Almeida que, numa demonstração superior de fair
play ideológico, nos honraram com a sua presença. Ao contrário, diga-se, de
todas as outras entidades públicas e partidos que, de forma ostensiva e, em
alguns casos, deliberada, se fizeram notar pela ausência. A “humildade
democrática” prova-se nos gestos, e não nas palavras.


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