quarta-feira, 13 de maio de 2026

Speakers' Corner 84

Fé na Humanidade

Esta terá sido a semana mais religiosa da vida portuguesa contemporânea. Num curto intervalo de dias coincidiram, mais uma vez, as duas maiores manifestações de fé popular do país: o Senhor Santo Cristo dos Milagres e Fátima. Num Estado que se proclama laico, a extraordinária capacidade de mobilização coletiva destas celebrações revela um país que, afinal, continua profundamente marcado pela sua génese cristã. Seja através do culto mariano de Fátima, seja, em versão insular, pela devoção ao Senhor Santo Cristo, tal como foi difundida por Madre Teresa da Anunciada, permanece viva uma espécie de memória espiritual que resiste à modernidade e à erosão da própria fé.

O fenómeno de Fátima não pode ser dissociado da sua circunstância histórica. As aparições de 1917 emergem num Portugal dilacerado pelas convulsões anticlericais da Primeira República e de um mundo devastado pela Primeira Guerra Mundial. Na Cova da Iria, três crianças pobres e analfabetas surgem quase como símbolo de uma inocência primordial, escolhidas pelo divino para advertir a humanidade acerca das suas fragilidades morais e espirituais. Não surpreende, por isso, que a reação inicial do poder republicano tenha oscilado entre a hostilidade e a repressão, interpretando o fenómeno como uma potencial conspiração clerical e monárquica contra a República. Também não é indiferente o facto de Portugal se encontrar então mergulhado no horror da guerra europeia e africana. Fátima nasce desse cruzamento entre medo, esperança e necessidade de transcendência. Mais tarde, a oficialização do culto pela Igreja, em 1930, e a apropriação simbólica feita pelo Estado Novo acabariam por sedimentar Fátima como um dos grandes pilares identitários do século XX português.

O culto do Senhor Santo Cristo dos Milagres, profundamente enraizado em São Miguel e em todo o imaginário açoriano, possui igualmente uma origem inseparável do seu tempo histórico. Surge na esteira da Contrarreforma católica e do reforço do culto da Paixão de Cristo como resposta doutrinária aos avanços do protestantismo europeu. O Ecce Homo, o Jesus humilhado, ensanguentado e sofredor, torna-se uma das imagens centrais da espiritualidade barroca saída do Concílio de Trento.

Entre os finais do século XVII e o início do XVIII, os Açores eram um território de pobreza, isolamento e permanente vulnerabilidade. À ameaça constante de catástrofes e tempestades somavam-se os ataques de piratas e a tragédia da emigração. Foi nesse ambiente religioso e político, num império português alimentado pelo ouro do Brasil, que viveu Madre Teresa da Anunciada. A procissão promovida por Madre Teresa, em 1698, nasce precisamente dessa necessidade coletiva de proteção, redenção e esperança perante a permanente precariedade da vida.

Talvez por isso o Senhor Santo Cristo permaneça tão profundamente inscrito não só no espírito micaelense como na alma açoriana. Não apenas enquanto devoção religiosa, mas enquanto linguagem emocional de um povo habituado à imponderabilidade da existência. A imagem do Cristo sofredor funciona não como triunfo da transcendência, mas como reconhecimento íntimo da inerente fragilidade da condição humana.

Para alguém sem fé, como eu, o fenómeno coletivo da peregrinação, da promessa ou da simples crença é, antes de tudo, uma manifestação pura de humanidade. A devoção mariana ou a sacralização da imagem do Cristo da Paixão representam, acima de tudo, a expressão não do divino, mas daquilo que existe de mais sublime em nós: a infinita capacidade do ser humano para resistir e para amar, mesmo em face do Inferno.

Maria, a mãe, ou o Jesus torturado e sofredor apresentado à multidão simplesmente como “o Homem”, acabam por ser espelhos simbólicos da própria Humanidade. São representações da nossa vulnerabilidade, mas também da nossa permanente possibilidade de redenção e dessa extraordinária capacidade que temos, apesar de tudo, para criar o bem.

 

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