Entre Nevoeiros
Há semanas em que o cronista se depara com a angústia
deserta da página em branco. Noutras, a torrente de factos é tal que a
verdadeira dificuldade está em escolher por onde deixar cair a pena.
Na política regional, a novela prossegue excitante.
Entrevistas e contraentrevistas alimentam parangonas. Esgrimem-se argumentos
para todos os gostos, desde os que passam certidão de óbito à coligação aos
que, marinando nela, ainda lhe auguram um futuro auspicioso. Na Roma antiga
dizia-se que morrem novos aqueles que os deuses amam. Por cá, parece que os
próprios protagonistas ainda não perceberam que são já cadáveres políticos,
incapazes de regressar à vida por mais sopas do Espírito Santo que lhes sirvam.
Por seu lado, o líder da oposição, sem afastar totalmente o
namoro centrista, ensaia um argumento formalista para justificar o receio de
eleições. Uma coisa é controlar o próprio partido; outra, bem mais complexa, é
enfrentar a imprevisibilidade do voto popular. Invocam-se a Constituição, os
avisos do Presidente da República e os da sua enviada local para defender uma
espécie de entente parlamentar, em vez de devolver a palavra ao povo.
O que mais espanta neste juridiquês político falacioso é a
incapacidade de perceber o dano que causa à própria democracia. O medo do
CHEGA, ou o medo de perder o próprio lugar, parece sobrepor-se à evidência de
que, num momento em que a desconfiança dos cidadãos em relação à política é tão
profunda, recusar o voto popular para resolver uma crise política apenas
agravaria esse descrédito. E quanto maior o descrédito, mais fértil o terreno
para o populismo que dizem combater.
É como se o nevoeiro que se abateu sobre as ilhas tivesse
também descido sobre o discernimento dos protagonistas do teatro político. Um
manto espesso e opressivo, produzido tanto pelas condições atmosféricas como
pelo excesso de tática e pela falta de sentido de serviço público.
A névoa prolonga-se, aliás, como metáfora viva da nossa
condição coletiva. Aviões permanecem em terra ou sobrevoam as ilhas em
círculos, incapazes de aterrar. Acumulam-se passageiros sem destino nem lugar
onde dormir. Tudo se suspende. Uma espécie de cataclismo em forma de vapor que
entorpece os corpos e obscurece a visão, até que tudo se torna baço, inclusive
nós próprios.
Talvez essa lassidão ajude a explicar o editorial de sábado
do Diário Insular, onde, com desarmante naturalidade, foi revelado que
informação técnica relevante sobre o risco vulcânico de Santa Bárbara terá sido
deliberadamente omitida às populações, não apenas por departamentos
governamentais, mas também pelo próprio jornal. Se assim foi, estamos perante
uma grave omissão e uma afronta aos princípios mais elementares da deontologia
jornalística.
Mas, num país onde a democracia parece padecer de uma doença
lenta e degenerativa, à autocensura jornalística, mais perigosa do que muitas
falsas notícias, junta-se uma chaga judicial que ameaça corroer a confiança
pública. Depois de uma carta dirigida ao Presidente da República, o juiz Ivo
Rosa descreveu, em entrevista, situações de verdadeira perseguição por parte do
Ministério Público que deveriam provocar um sobressalto cívico generalizado.
Mas já nem isso parece capaz de romper o nevoeiro que nos entorpece.
Também no sábado, Ponta Delgada recebeu a célebre peça Catarina
ou a Beleza de Matar Fascistas. O que mais impressiona não é o dilema do
conhecido paradoxo da tolerância de Popper. É, antes, a forma como o
dispositivo cénico transforma o público em ator. A certa altura, deixa de ser o
palco o lugar da intolerância e passa a ser a plateia o seu espelho. Nessa
desconfortável inversão, percebemos que a fronteira entre democracia e
autoritarismo é, afinal, muito mais frágil do que gostamos de admitir.
Talvez seja esse o maior paradoxo. Enquanto discutimos quem ameaça a democracia, esquecemo-nos de que ela raramente morre de um tiro. Morre lentamente e sem estrondo, como um nevoeiro.


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