quarta-feira, 15 de julho de 2026

Speakers' Corner 93

O Valor dos Regressos

Nos últimos dias, e ainda antes da divulgação das mais recentes análises à qualidade das águas balneares, São Miguel voltou a assistir ao encerramento de duas zonas balneares por decisão das autoridades de saúde. Somando-se a outros episódios recentes e a resultados preocupantes em várias zonas balneares de referência, começa a desenhar-se um padrão que deveria preocupar autarquias, Governo e cidadãos.

Infelizmente, na incessante discussão que vamos tendo sobre o turismo, perdemo-nos demasiadas vezes na questão das acessibilidades aéreas e esquecemo-nos de um fator ainda mais determinante para o sucesso do destino: a sua qualificação.

A qualidade de um destino não se mede apenas pelo alojamento ou pela restauração. Mede-se também pela limpeza das praias, pela conservação dos trilhos, pela qualidade das águas balneares, pela paisagem, pelo património e pela experiência global que proporciona a quem o visita. É essa experiência, no seu conjunto, que gera a melhor forma de promoção: a recomendação de quem já nos visitou. E, acima de tudo, cria aquilo que qualquer destino turístico procura, turistas que regressam, vulgarmente conhecidos no jargão do setor como repeaters.

A relação entre first timers e repeaters é um dos indicadores mais importantes da competitividade de um destino. Quem visita pela primeira vez concentra-se normalmente nos lugares mais conhecidos, contribuindo para a pressão sobre os pontos turísticos mais mediáticos. Quem regressa procura outras ilhas, novas experiências, gastronomia, património, cultura e um conhecimento mais profundo do território. É também quem permanece mais tempo, distribui melhor o seu consumo e contribui para um turismo mais sustentável.

É precisamente este valor do regresso que tendemos a esquecer nos Açores. Num arquipélago com um mercado interno reduzido e dependente da ligação aérea, fidelizar visitantes é tão importante como conquistar novos turistas.

Os aviões trazem turistas. Só a qualidade do destino os faz regressar.

Quando nos obcecamos com campanhas de promoção ou com a captação de novas rotas, esquecemo-nos de que a melhor estratégia para encher esses aviões continua a ser garantir a satisfação de quem nos visita. Um turista satisfeito não só regressa como recomenda o destino a familiares e amigos, multiplicando o impacto da sua experiência muito para além da sua própria viagem.

Segundo os dados mais recentes do OTSA, na época alta de 2025, cerca de 60% dos turistas estavam nos Açores pela primeira vez e apenas 40% repetiam a visita. E dificilmente a explicação para esta diferença estará no preço. Mais de 70% dos visitantes têm rendimentos mensais superiores a 2000€ e, destes, mais de 12% ultrapassam os 9000€. Apesar dos elevados níveis de satisfação dos inquiridos, continuamos a revelar uma capacidade relativamente modesta para transformar boas experiências em regressos.

Nos últimos anos, o setor privado fez um esforço extraordinário para qualificar a oferta turística, seja no alojamento, na restauração ou na animação. Já o investimento público ficou tristemente aquém desse esforço. Bermas de estradas degradadas, praias sem nadadores-salvadores, zonas balneares frequentemente interditas ou cobertas de algas, trilhos sem manutenção e um património histórico e cultural insuficientemente valorizado são detalhes que, somados, pesam na experiência de quem nos visita e acabam por enfraquecer a competitividade do destino no feroz mercado global.

A sustentabilidade do turismo açoriano não depende apenas da capacidade de atrair novos visitantes ou abrir novos mercados. Depende, sobretudo, da capacidade de lhes dar razões para voltar. Um destino vale verdadeiramente quando deixa de ser apenas uma descoberta e passa a ocupar um lugar permanente na memória afetiva de quem o visita. É esse, mais do que qualquer campanha de promoção ou nova rota aérea, o verdadeiro valor dos regressos.

 

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Speakers' Corner 92

A ideia de América

No último sábado, os Estados Unidos da América celebraram o 250.º aniversário da Declaração de Independência. Mais do que um marco histórico ou uma celebração identitária, o 4th of July, particularmente num aniversário tão simbólico como este, é um convite a refletir sobre aquilo a que se usou chamar a ideia de América.

Desde tempos imemoriais, alimentado por lendas e mitos atlânticos, o Ocidente foi imaginado como a Terra Prometida. A chegada dos primeiros colonos à América consolidou essa visão de um território de oportunidades e abundância, uma narrativa renovada ao longo dos séculos nas lutas dos Founding Fathers, na conquista do Oeste, na corrida ao ouro e na land of opportunity de sucessivas gerações de emigrantes que ali encontraram a terra dos sonhos e, para alguns, da prosperidade. Poucas imagens traduzem melhor esse imaginário do que a voz de Frank Sinatra cantando If you can make it there, you'll make it anywhere, em New York, New York. A cidade que nunca dorme, juntamente com o grande Oeste americano, permanece, ainda hoje, como símbolo maior dessa promessa de liberdade e oportunidade para todos.

O historiador Daniel J. Boorstin descreveu a América como uma nação onde tudo parecia possível, uma terra do inesperado, da descoberta e da esperança. Talvez essa tenha sido a maior herança política dos EUA: a convicção de que a liberdade individual constitui a condição essencial para construir uma vida melhor e de que o papel da comunidade e do Estado é, antes de mais, protegê-la.

Os princípios inscritos na Declaração de Independência, na Constituição e, em particular, na Bill of Rights, três dos mais influentes documentos da tradição política ocidental, assentam na ideia de We the People. Limitam o poder do Estado, estabelecem o equilíbrio entre poderes e consagram liberdades fundamentais como a liberdade de expressão, de religião, de imprensa e de reunião, bem como o direito a um julgamento justo e à proteção contra os abusos da autoridade.

As palavras de Thomas Jefferson inscritas na Declaração de Independência permanecem entre as mais poderosas da história política moderna: "Consideramos estas verdades evidentes por si mesmas: que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo seu Criador de certos direitos inalienáveis, entre os quais a Vida, a Liberdade e a procura da Felicidade." Nelas afirma-se uma profunda mudança civilizacional face ao Antigo Regime, colocando a dignidade da pessoa humana no centro da organização política da comunidade, do Estado e da Lei.

Apesar das suas profundas contradições ao longo destes duzentos e cinquenta anos, marcadas pela escravatura, pelo genocídio dos povos nativos, pelas tentações imperialistas e pelas desigualdades de uma sociedade moldada pelas tensões do capitalismo, a América continua, mesmo num tempo de populismos e nacionalismos, a representar a land of the free. O American Dream, esse El Dorado possível, continua a alimentar a esperança e a ambição de milhões de pessoas em todo o mundo.

Para nós, açorianos, mais do que a décima ilha, a América representa uma existência repartida entre dois continentes, entre as margens de um oceano de esperança onde o Velho e o Novo Mundo se encontram. Dos irmãos Corte-Real ao novo ou velho emigrante açoriano de hoje, a América permanece não apenas como um lugar, mas como uma ideia: a de que existe sempre uma nova fronteira por descobrir e um futuro melhor para construir.

Talvez seja esse o seu maior legado. Recordar-nos que um povo só é verdadeiramente livre enquanto conservar essa capacidade de sonhar. Porque sonhar é desafiar os limites do presente e acreditar na possibilidade de um futuro melhor. Enquanto existir essa liberdade de sonhar, haverá sempre um caminho por abrir, um oceano por atravessar ou uma esperança por cumprir. No fim, são os sonhos que nos tornam livres. E talvez seja essa liberdade o que, de alguma forma, nos torna únicos e imortais.

 

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Speakers' Corner 91

A Outra Face da Autonomia

Na última sexta-feira, a Assembleia da República assinalou, numa sessão solene, o cinquentenário das primeiras eleições regionais e da instalação dos parlamentos dos Açores e da Madeira. Numa cerimónia marcada pela conspícua ausência do Primeiro-Ministro, os discursos oscilaram entre a exaltação das conquistas alcançadas e a já habitual reafirmação da necessidade de um maior apoio financeiro da República às ilhas.

Também António Vitorino, convidado a discursar no Salão Nobre da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, salientou a justiça dessa solidariedade nacional, reforçando a ideia, repetidamente evocada por José Manuel Bolieiro, de um devido "tributo da República" para com os arquipélagos.

Ao mesmo tempo, um episódio aparentemente secundário acabou por revelar muito sobre o atual momento político e sobre os seus protagonistas. Enquanto Miguel Albuquerque abandonou a presidência da Mesa do Congresso do PSD, alegando explicitamente o insuficiente compromisso da direção nacional com as autonomias, José Manuel Bolieiro aceitou, sem pejo, o convite de Montenegro para desempenhar esse cargo. O que, para um, constituiu uma questão de verticalidade autonómica, para o outro traduziu-se num exercício de maleabilidade política. Mais do que uma falha de lealdade de Bolieiro para com Albuquerque, para com a Madeira ou para com a defesa conjunta do projeto autonómico, o episódio demonstra como a causa da autonomia continua, demasiadas vezes, subordinada às conveniências pessoais e partidárias dos seus protagonistas.

Para lá dos discursos e das estratégias, há uma ideia de fundo que sobressai ao cabo de meio século de autonomia e das respetivas celebrações: a de que existe uma obrigação permanente da República de financiar o desenvolvimento das regiões autónomas, como se a solidariedade nacional fosse um direito adquirido, inesgotável e incondicional.

Por mais legítimas que sejam estas reivindicações, há uma outra face da autonomia de que ninguém parece querer falar: a da corresponsabilidade. Solidariedade nacional e responsabilidade insular são os dois pilares fundamentais do projeto autonómico. Uma reconhece os custos permanentes da insularidade; a outra exige que a Região governe os seus destinos com rigor, eficiência e visão estratégica.

O discurso político permanece excessivamente concentrado naquilo que a República deve aos Açores e muito menos naquilo que os Açores devem a si próprios. Continuamos a discutir transferências financeiras, mas evitamos debater a produtividade, a competitividade, a simplificação e modernização administrativa, a eficiência dos serviços públicos ou a sustentabilidade da dívida regional. É sempre mais fácil reclamar novos recursos do que reformar a forma como utilizamos os que já temos.

Celebramos estradas, portos, aeroportos e hospitais, mas raramente debatemos quem pagará a sua manutenção nas próximas décadas. Evitamos discutir o inverno demográfico, a reorganização inevitável dos serviços públicos, a complementaridade entre ilhas ou a necessidade de fazer escolhas difíceis num território com recursos limitados e persistentes bolsas de pobreza.

Passamos demasiado tempo enredados em bairrismos, olhando para os nossos umbigos, ou em reivindicações pecuniárias, em vez de olharmos para os Açores sem o conforto da retórica sobre uma alegada centralidade atlântica, que não passa de um acaso geográfico, enfrentando antes as nossas fragilidades na educação, na produtividade, na demografia, na coesão territorial e na criação de riqueza.

A autonomia nasceu para substituir a tutela política de Lisboa, não para institucionalizar uma dependência financeira permanente. Só uma Região que se governe com exigência, rigor e visão estratégica poderá reclamar, com inteira legitimidade, a solidariedade nacional e o respeito político da República.

Caso contrário, continuaremos a levantar a voz para reclamar mais autonomia, enquanto estendemos a mão para que alguém continue a pagar a conta.