quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Speakers' Corner 98

Crónica de um navio que passa

Ontem, ao final da manhã, debaixo de um céu tímido e de um sol envergonhado, coberto por um sudário de nuvens baixas e acinzentadas, a Sagres passou por aqui, no horizonte da minha janela. Lenta e altiva, na sua pose aristocrática, enquadrada pelo Ilhéu, permanente vulcão ancorado, como um galeão de antigamente, atraía-nos os olhos para o mar. Para uma memória nostálgica da mais romântica forma de viajar, de velas abertas ao sabor do vento pela mais líquida imensidão da Terra, que afinal é feita de mar.

Há no oceano uma atração uterina, uma recordação instintiva de um tempo inicial e primeiro. O mar que envolve e resguarda. O mar que expulsa e devolve. Que dá e tira o sopro da vida. Somos todos filhos do oceano, dessa maternidade líquida, desse ondulado embalo da génese da vida, dessa memória primordial de onde tudo parece ter começado. Talvez por isso seja no mar que recuperamos qualquer coisa dessa primeira centelha da existência. O mar recorda-nos o princípio de tudo, um tempo anterior às palavras.

E a Sagres, pela sua majestade simbólica, parece recordar-nos também essa raiz marítima da identidade portuguesa. Esse lugar de onde partimos. Esse destino de sal e lágrimas de que falava Fernando Pessoa. Temos os olhos fixos nos horizontes do mundo, os sonhos lançados dos promontórios da terra, em busca de futuros possíveis, das ilhas dos amores de Camões, de glórias e abundâncias, satisfações fugazes para uma constante sucessão de perigos e desilusões.

Ver agora a Sagres vagando no horizonte, aqui tão perto, é, de certa forma, contemplar o passado. Uma viagem no tempo a um lugar antigo, uma forma de regresso. Durante séculos, era em navios como aquele que se cruzavam os oceanos. Viagens que podiam durar meses ou anos, sulcando as ondas em busca de paragens longínquas, outros continentes, ilhas paradisíacas, outros hemisférios e longitudes distantes. Sob bons e maus ventos, entre perigos e bonanças, contra ou a favor das correntes, num tempo em que a distância tinha um nome que se pronunciava com a voz do mar.

A nossa natureza é feita de velas enfunadas, mastros inclinados, cabrestantes e gáveas, enxárcias esticadas contra o céu, das ondas lambendo as amuradas. Somos o odor e a agitação dos conveses, as tábuas dos cascos, o ranger dos cabos e as voltas das rodas do leme. Somos a proa apontada ao desconhecido e a popa deixando para trás uma esteira de espuma. Pescadores e marinheiros, meros passageiros e intrépidos viajantes. Conquistadores e escravos, mulheres abandonadas, piratas, fugitivos e arrenegados, escudeiros ambiciosos e filhos bastardos. Mouros, flamengos, árvores do reino e sementes de todas as origens. Somos brasis e américas, orientes para lá dos orientes. Temos no sangue a cegueira dos baleeiros e na alma o cântico das baleias.

O oceano é o nosso chão. E o mar a nossa morada.

Dentro de cada um de nós há um cemitério de naufrágios. Somos também a memória desses navios perdidos. Fomos construtores de mundos, disseminadores de línguas e ideias. Tanto destruímos como criámos. E desse encontro, tantas vezes violento, nasceram novas gentes, novas culturas, novas geografias humanas. Miscigenações encantadas e lúbricas, tanto de dor como de amor.

Os nossos ossos mergulham no mar, escreveu Nemésio. E até os nossos santos dão à costa, num recolhimento de basalto e conventos, numa fé feita de sal. Os nossos pulmões respiram ao ritmo das ondas, o coração bate ao compasso das vagas, entre homens que partem e mulheres que resistem ao tempo, à distância e à infinita sina da solidão.

Talvez seja por isso que cada navio que passa seja ainda uma vontade de partir. Mas toda a partida é também uma esperança de regressar. De ilha em ilha, com os olhos nas estrelas, continuamos a fitar a distância, indagando o rumo que a vida há de tomar.

E talvez não exista no universo distância maior do que a distância do mar.

 

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Speakers' Corner 97

A Travessia

Chegou segunda-feira à praia de Santo António, depois de percorrer sensivelmente novecentos quilómetros ao longo da costa portuguesa, desde a Praia do Moledo, em Caminha, até às margens do Guadiana. Mas José Maria Pyrrait, o autor desta inusitada façanha, não vinha a pé, nem de qualquer forma motorizado. Avançava lenta e humanamente, ritmado pela sua pagaia, em cima de uma prancha de stand-up paddle.

Ao fim de cerca de quarenta dias de remada, o veterano surfista português, já com 60 anos, concluiu assim uma travessia única pela extensão do nosso litoral. Um desafio pessoal e uma viagem aspiracional sobre resiliência, superação e a permanente capacidade de abraçar objetivos e ambições, independentemente da idade ou da condição física.

Naquilo que o próprio apresentou como um manifesto pelo mar e pela saúde, chamando a atenção para a proteção do oceano, o envelhecimento saudável e a luta contra a diabetes tipo 2, completou uma viagem quase solitária e introspectiva, não apenas pela costa continental portuguesa, mas por uma certa forma de estar na vida.

O Pyrrait, como é conhecido no particular mundo do surf, é um daqueles raros personagens cuja vida daria um filme. Nascido em Lisboa e crescido no Brasil, foi repórter de guerra, fotógrafo profissional, surfista, treinador, viajante e colecionador de histórias, quase açoriano, saltimbanco e inspiração. Um desses heróis desconhecidos que, de repente, veem o seu nome repetido nos principais noticiários pela originalidade, bravura e dimensão da sua façanha.

Mas, para além de tudo o resto, a viagem de Pyrrait ficou marcada por um momento trágico.

Na etapa entre a Zambujeira do Mar e o Monte Clérigo, o jovem Arran Strong, que o acompanhava, desapareceu ao largo da Arrifana. Na sua página do Instagram, Pyrrait descreveu assim o sucedido:

Parámos ao largo da Arrifana para beber água e tirar algumas fotografias. Estivemos à conversa e, quando retomámos a travessia, deixei-o seguir à frente. Como o meu ritmo é mais rápido, fazia sempre isso. Quando o alcançava e ganhava algum avanço, parava e esperava por ele. Desta vez não foi diferente. No entanto, quando parei para o esperar, vi apenas a sua prancha à deriva, a cerca de 100 metros de distância. Remei o mais depressa que consegui até lá. Mergulhei vezes sem conta à sua procura, mas estávamos numa zona muito profunda e com uma visibilidade muito reduzida. […] Infelizmente, o Arran continua desaparecido e, neste momento, as possibilidades de ainda estar vivo são praticamente nulas.

Acredita-se que Strong, ele próprio um surfista de alta competição, terá sucumbido a complicações da epilepsia de que sofria.

Após a sua chegada, Pyrrait afirmou a sua convicção de que a morte não deve ser um tabu. “Todas as pessoas que nós amamos morrem um dia. Umas vão antes, outras vão depois de nós”, disse, numa declaração de amor por alguém que considerava como um filho e que morreu a fazer aquilo que amava.

Na Roma Antiga dizia-se que morriam cedo aqueles que os deuses amavam. A nós, resta-nos pedir que a morte nos leve, quando chegar, junto daqueles que amamos e rodeados daquilo que aprendemos a amar.

Depois de uma vida no mar e desta odisseia de 900 quilómetros pela costa portuguesa abaixo, e quando o país se prepara para celebrar os seus 900 anos, a viagem de Pyrrait lembra-nos que ainda somos um país de mar, de sal e de sonhos que se vivem na distância e na deambulação das correntes e das ondas; de ventos e tempestades que se cruzam com possíveis calmarias, num destino feito de milhas.

O mar não é nosso”, disse também Pyrrait aos jornalistas. “Mas há certas pessoas que são do mar, e eu tenho a sorte de ser uma delas.”

Talvez seja essa verdade escondida desta viagem. A aceitação de que, entre a terra de onde partimos e a terra onde chegamos, somos todos passageiros de uma mesma corrente. Solitários remadores do oceano da vida. E alguns têm a sorte de ser do mar.

 

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Speakers' Corner 96

Órfãos da luz

A manhã levantou-se com a cor do ocaso. De uma luz tépida e baça, como um vidro fosco, impenetrável ao olhar. Um nevoeiro espesso cobria o horizonte, num prenúncio de chuva. Esse sinistro nevoeiro de Antero, essa matéria informe onde as coisas parecem perder o contorno e os homens a vontade. Um nevoeiro líquido e gotejante, ritmado pelo crepitar miúdo da chuva sobre os vidros. Essa humidade constante que repreende a vocação dos olhos para indagar. Tudo se confundia entre o mar, o céu e o horizonte, até na cor dos olhos de quem insiste em encontrar alguma coisa para lá da bruma. O mundo inteiro parecia reduzido a um único tom de branco acinzentado.

Agosto acordou espesso. Com qualquer coisa de viscoso, de enlameado pelo chuvisco morno, um persistente chuvisco piolhento que abespinha a pele e o humor. É um Agosto que faz as ilhas merecerem o seu velho epíteto de bruma. Dias sucessivos debaixo dessa névoa quente que se prende ao corpo com a fatalidade de um suor insistente. Procuramos o mar para nos refrescarmos, mas o oceano está quente e o ar tão saturado de água que quase se faz vapor. Tudo parece dissolver-se na mesma substância húmida. Os sentidos deixam de reconhecer o lugar das coisas, os hábitos perdem o rumo e as estações parecem divertir-se com a nossa necessidade de lhes dar um nome. O verão fez-se outono que saltou o inverno e perdeu-se numa primavera que nunca chegou a existir.

Talvez sempre tenha sido assim. A memória é difusa e capaz de esconder o passado na mesma névoa que cobre o horizonte. Guardo recordações vagas dos verões da infância, em que o sol também se escondia por entre as frinchas dos dias. Andávamos sempre com uma muda de roupa para remediar a chuva que teimava em voltar. Abrigávamo-nos debaixo das árvores do jardim e regressávamos a casa nas intermitências do tempo. Ficavam as tardes compridas no recato das casas, o som abafado das janelas fechadas, o cheiro da roupa húmida e a dor das otites. As tardes mornas e macilentas de Pedro da Silveira, onde o tempo parecia desistir de passar e apenas permanecia, suspenso entre a humidade das paredes e a impaciência das horas.

Quando éramos miúdos e chovia na praia escondíamos as mochilas debaixo da areia para as proteger da chuva e mergulhávamos no mar, como se a água fosse a forma mais simples de esperar que o tempo mudasse. Os mais velhos pregavam-nos amonas na água escura e nós voltávamos à superfície golpeando o ar, as lágrimas e o riso, sem imaginar que o verão pudesse alguma vez falhar-nos. Naquele tempo o verão não precisava de ser luminoso. Bastava-lhe ser nosso.

Ou talvez fôssemos nós que ainda não conhecíamos as frustrações meteorológicas da idade adulta, nem confundíamos o estado do céu com o estado da alma. A infância tem essa feliz capacidade de resistir aos humores do tempo e da natureza.

Hoje, da minha janela, não se vê o Ilhéu. O horizonte é branco-sujo, como um lençol antigo que os anos foram deixando encardir. O nevoeiro faz-se mortalha das nossas aspirações de sol e cobre-nos com um calor líquido, obstinado, quase irrespirável, com o peso de um cansaço que lentamente se entranha no corpo.

Há um peso no ar. Um fardo invisível de gotas suspensas que se cola às costas e ao pensamento. Uma gordura húmida que se deposita sobre as coisas como um lodo transparente, tornando mais lentos os gestos, mais baça a luz, mais pesado o ânimo. Somos órfãos da luz, náufragos à deriva neste arquipélago de bruma.

Talvez por isso o verão na ilha permaneça sempre inacabado. Não começa, nem acaba. Desenrola-se como a própria névoa, escondendo-se atrás de manhãs como esta, até que um dia damos por nós a sentir saudades de um tempo que talvez nunca tenha brilhado tanto quanto o recordamos. As estações vivem menos no calendário do que na memória. E a memória, como o nevoeiro, nunca faz desaparecer o tempo. Apenas o encobre até ao dia em que voltamos a ansiar por ele.