quarta-feira, 8 de julho de 2026

Speakers' Corner 92

A ideia de América

No último sábado, os Estados Unidos da América celebraram o 250.º aniversário da Declaração de Independência. Mais do que um marco histórico ou uma celebração identitária, o 4th of July, particularmente num aniversário tão simbólico como este, é um convite a refletir sobre aquilo a que se usou chamar a ideia de América.

Desde tempos imemoriais, alimentado por lendas e mitos atlânticos, o Ocidente foi imaginado como a Terra Prometida. A chegada dos primeiros colonos à América consolidou essa visão de um território de oportunidades e abundância, uma narrativa renovada ao longo dos séculos nas lutas dos Founding Fathers, na conquista do Oeste, na corrida ao ouro e na land of opportunity de sucessivas gerações de emigrantes que ali encontraram a terra dos sonhos e, para alguns, da prosperidade. Poucas imagens traduzem melhor esse imaginário do que a voz de Frank Sinatra cantando If you can make it there, you'll make it anywhere, em New York, New York. A cidade que nunca dorme, juntamente com o grande Oeste americano, permanece, ainda hoje, como símbolo maior dessa promessa de liberdade e oportunidade para todos.

O historiador Daniel J. Boorstin descreveu a América como uma nação onde tudo parecia possível, uma terra do inesperado, da descoberta e da esperança. Talvez essa tenha sido a maior herança política dos EUA: a convicção de que a liberdade individual constitui a condição essencial para construir uma vida melhor e de que o papel da comunidade e do Estado é, antes de mais, protegê-la.

Os princípios inscritos na Declaração de Independência, na Constituição e, em particular, na Bill of Rights, três dos mais influentes documentos da tradição política ocidental, assentam na ideia de We the People. Limitam o poder do Estado, estabelecem o equilíbrio entre poderes e consagram liberdades fundamentais como a liberdade de expressão, de religião, de imprensa e de reunião, bem como o direito a um julgamento justo e à proteção contra os abusos da autoridade.

As palavras de Thomas Jefferson inscritas na Declaração de Independência permanecem entre as mais poderosas da história política moderna: "Consideramos estas verdades evidentes por si mesmas: que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo seu Criador de certos direitos inalienáveis, entre os quais a Vida, a Liberdade e a procura da Felicidade." Nelas afirma-se uma profunda mudança civilizacional face ao Antigo Regime, colocando a dignidade da pessoa humana no centro da organização política da comunidade, do Estado e da Lei.

Apesar das suas profundas contradições ao longo destes duzentos e cinquenta anos, marcadas pela escravatura, pelo genocídio dos povos nativos, pelas tentações imperialistas e pelas desigualdades de uma sociedade moldada pelas tensões do capitalismo, a América continua, mesmo num tempo de populismos e nacionalismos, a representar a land of the free. O American Dream, esse El Dorado possível, continua a alimentar a esperança e a ambição de milhões de pessoas em todo o mundo.

Para nós, açorianos, mais do que a décima ilha, a América representa uma existência repartida entre dois continentes, entre as margens de um oceano de esperança onde o Velho e o Novo Mundo se encontram. Dos irmãos Corte-Real ao novo ou velho emigrante açoriano de hoje, a América permanece não apenas como um lugar, mas como uma ideia: a de que existe sempre uma nova fronteira por descobrir e um futuro melhor para construir.

Talvez seja esse o seu maior legado. Recordar-nos que um povo só é verdadeiramente livre enquanto conservar essa capacidade de sonhar. Porque sonhar é desafiar os limites do presente e acreditar na possibilidade de um futuro melhor. Enquanto existir essa liberdade de sonhar, haverá sempre um caminho por abrir, um oceano por atravessar ou uma esperança por cumprir. No fim, são os sonhos que nos tornam livres. E talvez seja essa liberdade o que, de alguma forma, nos torna únicos e imortais.

 

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