O Valor dos Regressos
Nos últimos dias, e ainda antes da divulgação das mais
recentes análises à qualidade das águas balneares, São Miguel voltou a assistir
ao encerramento de duas zonas balneares por decisão das autoridades de saúde.
Somando-se a outros episódios recentes e a resultados preocupantes em várias
zonas balneares de referência, começa a desenhar-se um padrão que deveria
preocupar autarquias, Governo e cidadãos.
Infelizmente, na incessante discussão que vamos tendo sobre
o turismo, perdemo-nos demasiadas vezes na questão das acessibilidades aéreas e
esquecemo-nos de um fator ainda mais determinante para o sucesso do destino: a
sua qualificação.
A qualidade de um destino não se mede apenas pelo alojamento
ou pela restauração. Mede-se também pela limpeza das praias, pela conservação
dos trilhos, pela qualidade das águas balneares, pela paisagem, pelo património
e pela experiência global que proporciona a quem o visita. É essa experiência,
no seu conjunto, que gera a melhor forma de promoção: a recomendação de quem já
nos visitou. E, acima de tudo, cria aquilo que qualquer destino turístico
procura, turistas que regressam, vulgarmente conhecidos no jargão do setor como
repeaters.
A relação entre first timers e repeaters é um
dos indicadores mais importantes da competitividade de um destino. Quem visita
pela primeira vez concentra-se normalmente nos lugares mais conhecidos,
contribuindo para a pressão sobre os pontos turísticos mais mediáticos. Quem
regressa procura outras ilhas, novas experiências, gastronomia, património,
cultura e um conhecimento mais profundo do território. É também quem permanece
mais tempo, distribui melhor o seu consumo e contribui para um turismo mais
sustentável.
É precisamente este valor do regresso que tendemos a
esquecer nos Açores. Num arquipélago com um mercado interno reduzido e
dependente da ligação aérea, fidelizar visitantes é tão importante como
conquistar novos turistas.
Os aviões trazem turistas. Só a qualidade do destino os faz
regressar.
Quando nos obcecamos com campanhas de promoção ou com a
captação de novas rotas, esquecemo-nos de que a melhor estratégia para encher
esses aviões continua a ser garantir a satisfação de quem nos visita. Um
turista satisfeito não só regressa como recomenda o destino a familiares e
amigos, multiplicando o impacto da sua experiência muito para além da sua
própria viagem.
Segundo os dados mais recentes do OTSA, na época alta de
2025, cerca de 60% dos turistas estavam nos Açores pela primeira vez e apenas
40% repetiam a visita. E dificilmente a explicação para esta diferença estará
no preço. Mais de 70% dos visitantes têm rendimentos mensais superiores a 2000€
e, destes, mais de 12% ultrapassam os 9000€. Apesar dos elevados níveis de
satisfação dos inquiridos, continuamos a revelar uma capacidade relativamente
modesta para transformar boas experiências em regressos.
Nos últimos anos, o setor privado fez um esforço
extraordinário para qualificar a oferta turística, seja no alojamento, na
restauração ou na animação. Já o investimento público ficou tristemente aquém desse
esforço. Bermas de estradas degradadas, praias sem nadadores-salvadores, zonas
balneares frequentemente interditas ou cobertas de algas, trilhos sem
manutenção e um património histórico e cultural insuficientemente valorizado
são detalhes que, somados, pesam na experiência de quem nos visita e acabam por
enfraquecer a competitividade do destino no feroz mercado global.
A sustentabilidade do turismo açoriano não depende apenas da
capacidade de atrair novos visitantes ou abrir novos mercados. Depende,
sobretudo, da capacidade de lhes dar razões para voltar. Um destino vale
verdadeiramente quando deixa de ser apenas uma descoberta e passa a ocupar um
lugar permanente na memória afetiva de quem o visita. É esse, mais do que
qualquer campanha de promoção ou nova rota aérea, o verdadeiro valor dos
regressos.


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