quarta-feira, 22 de julho de 2026

Speakers' Corner 94

A vitória dos trabalhadores

E, no fim, ganhou a Espanha. Talvez a equipa que melhor encarnou a ideia de trabalho coletivo ao longo de todo o Mundial. A Espanha demonstrou que o futebol continua a ser um jogo de onze contra onze, e não o desfile deste ou daquele astro, dessas estrelas fabricadas pelo marketing e a venda de camisolas. Apesar de tudo, o futebol continua a ser o passe, a finta, a organização e a força, física e mental, de um grupo de trabalhadores que, juntos, alcançam a glória.

Para lá de Messi ou de Lamine Yamal, a Espanha mostrou que o futebol é a visão e a coragem de um treinador, a resistência defensiva de uma equipa que sofreu apenas um golo em oito jogos, a consistência de um meio-campo que sabe trocar a bola no seu famoso tiki-taka, desesperando os adversários, e um ataque cínico e letal, feito até (sim, Roberto Martínez) de jogadores saídos do banco.

A Espanha de Simón, Cubarsí, Rodri, Cucurella, Oyarzabal, Merino e Torres é a Espanha das antiestrelas, da força e da união de um grupo que, envergando as cores das suas cidades e regiões, representam um país feito de múltiplas identidades. É também a Espanha dessa Hispanidad de Unamuno que inspirou Nemésio a criar a nossa Açorianidade e que nos recorda que é da união das diferenças que nascem os grandes futuros.

Entretanto, por Portugal, o Governo de Montenegro, campeão das viagens para assistir aos jogos do Mundial, ardia em lume alto com os escândalos do caos dos exames nacionais e da amizade polémica entre o ministro da Administração Interna, Luís Neves, e um empreiteiro de Barcelos.

Mais do que episódios isolados, ambos revelam uma preocupante húbris de quem exerce o poder convencido de que está acima das regras comuns. Embora em planos distintos, um perdido na arrogância do grande reformador, outro na sobranceria de quem parece confundir amizade com interesse público, ambos ilustram um país onde demasiadas vezes o Estado é capturado por pequenos esquemas, amizades, lóbis e redes de influência.

No fim, sobra sempre o cidadão comum. O estudante e a sua família, confrontados com a total incompetência do Estado; os professores e as escolas, que, apesar de tudo, mantiveram o sistema de pé enquanto tudo desmoronava; ou o contribuinte, perseguido pelo fisco por meia dúzia de euros e obrigado a assistir, impotente, ao espetáculo dos doutores que tudo parecem poder fazer: da piscina construída onde era um tanque à obra sem licença, do empreiteiro sem fatura ao inacreditável atrelado carregado de reagentes para o processamento de estupefacientes, enviado numa espécie de leasing improvisado do Seixal para o armazém do amigo.

E por aqui, nas ilhas, onde a dívida pública continua a crescer numa espiral sem travão, o presidente do Governo anuncia agora um investimento faraónico de trezentos milhões de euros num hospital que já deixou de ser apenas novo e universitário para se transformar num monumento político cuja construção parece importar mais do que a capacidade futura para o manter.

Sem explicar se os Açores dispõem da dimensão e da sustentabilidade financeira para suportar este verdadeiro Palácio de Versalhes das varizes e das overdoses, Bolieiro compromete a Região com centenas de milhões de euros sem esclarecer de onde virá o dinheiro e qual o plano para assegurar a sua viabilidade. Pior ainda, insiste na narrativa de que a República suportará 85% do investimento, quando a própria resolução do Conselho do Governo esclarece que esse financiamento respeita apenas à reposição das condições de prestação de cuidados de saúde existentes antes do incêndio.

Num tempo de heróis de pés de barro e de governantes enlameados, resta-nos a esperança que vem dos trabalhadores. Sejam os professores que, contra tudo, salvaram a época de exames. Ou aqueles onze operários espanhóis que em campo nos lembraram que a glória não é um direito, mas uma conquista da união, do trabalho e da humildade.

 

Sem comentários: