quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Speakers' Corner 103

Da invisibilidade

Subiu ao palco, no passado sábado, no Teatro Micaelense, a peça Filhos de Alguém, escrita a duas mãos por Nuno Costa Santos e João Pedro Porto, com encenação de Miguel Damião. A peça versa sobre dois irmãos gémeos, sem-abrigo e toxicodependentes, interpretados superiormente por Emanuel Arada e Rui Silva, que fixam residência no célebre “banco de Antero”, ali ao Campo de São Francisco, debaixo da icónica Esperança.

De entre os vários temas abordados, da pertença à identidade, a perda e o infortúnio, mas também de uma sociedade insular em mudança, onde se cruzam turismo, bairrismo, estratificação social, emigração e, sobretudo, uma crescente desestruturação social e familiar, há, contudo, uma questão que atravessa tudo isto e que me parece, paradoxalmente, ser o verdadeiro centro da peça: a invisibilidade.

Ponta Delgada vive hoje um problema grave de indigência, em grande medida amplificado pelo consumo descontrolado de novas drogas sintéticas, que se espalham pelas ruas da cidade como uma pandemia, à mesma velocidade com que as nossas respostas parecem ficar para trás. E, perante esta realidade, a nossa reação coletiva é muitas vezes a indiferença. Passamos por ela todos os dias, atravessamos o quotidiano alheados da sua presença, entre a manhã e a noite, e aprendemos a não olhar, de casa para o trabalho e do trabalho para o esquecimento coletivo. Quase como as térmitas, de que só nos lembramos quando elas entram furtivamente em nossa casa.

É aqui que Filhos de Alguém introduz uma ironia particularmente mordaz na nossa condição de observadores. Nós, espectadores, escolhemos sentar-nos confortavelmente num teatro para assistir a uma história sobre aquilo que, cá fora, fazemos precisamente por não ver. Pagamos um bilhete para que nos mostrem, sob a proteção da ficção e dentro da respeitabilidade burguesa e da luz coada de uma sala de espetáculos, uma realidade que se nos projeta na rua e que existe dia-a-dia à nossa porta. E a peça sabe disso.

Logo no início, quase imperceptivelmente, vemos desenrolar no ecrã dois sem-abrigo rebolando no “banco de Antero”. Durante alguns minutos observamo-los como quem observa um pano de fundo, até que os atores entram pela lateral da plateia quebrando de forma estridente a chamada “quarta parede”. Nesse instante, aquilo que parecia estar confinado ao palco deixa de estar. Está ali, no meio de nós.

Este artifício cénico é retomado ao longo da peça, com os atores a interpelarem diretamente o público e transforma-se numa espécie de acusação silenciosa ao próprio espectador. Em Filhos de Alguém não estamos apenas perante uma ficção, uma simples metáfora ou uma história sobre algo que suspeitamos ser real. Estamos perante uma verdade que reconhecemos, que sabemos existir e que, fora dali, tantas vezes, escolhemos não ver.

Essa é, talvez, a sua maior ironia, precisamos de ir ao teatro para que alguém nos mostre aquilo que está à nossa frente todos os dias.

A riqueza do texto destes dois nomes maiores da literatura açoriana contemporânea, está também nessa capacidade de nos colocar perante a nossa própria dualidade moral face ao infortúnio alheio. Mas é a encenação e a força, ao mesmo tempo, poética e física dos atores que transforma essa reflexão numa experiência corpórea, quase visceralmente incómoda.

Filhos de Alguém, mais do que uma peça sobre a toxicodependência (aliás um dos momentos mais cenicamente belos da peça), ou sobre o abandono social e familiar ou, mais especificamente, sobre a dificuldade intrínseca da relação filial, é sobre esta invisibilidade perturbadora em que nos transformamos enquanto comunidade e sobre essa existência marginal que escolhemos não ver. É sobre essa diferença primordial entre saber que uma coisa existe e ser obrigado a olhar para ela e agir.

No silêncio protegido do teatro, por breves momentos, escolhemos ver. Cá fora, talvez devêssemos começar a fazer o mesmo.

 

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Speakers' Corner 102

Das águas balneares

Agora que o verão que nunca verdadeiramente começou começa oficialmente a acabar, talvez seja tempo de fazer um breve balanço do que fica desta temporada estival.

Um dos indicadores mais reveladores, mais até do que essas multidões de turistas que também nunca chegaram, é a velha questão da qualidade das águas balneares. Um problema que nos atormenta ano após ano e que, este verão, voltou a revelar uma dimensão particularmente preocupante.

Das vinte e cinco águas balneares classificadas em São Miguel, apenas uma, as Piscinas Naturais da Lagoa, conseguiu apresentar uma folha limpa nas análises de qualidade da água. Se juntarmos as treze águas balneares não classificadas, mas igualmente sujeitas a análises periódicas, apenas mais uma, a Praia do Lombo Gordo, no Nordeste, conseguiu passar com distinção no teste do papel higiénico marítimo.

Ainda sem alguns dos resultados finais, que à data em que escrevo não foram publicados pelo competente departamento do Governo Regional, uma leitura preliminar dos dados disponíveis deixa-nos um quadro francamente inquietante.

Das trinta e oito localizações analisadas, sete apresentaram, pelo menos uma vez, valores de Escherichia coli ou Enterococos superiores a 500, quando o valor de referência é inferior a 15. Pelo menos quatro estiveram periodicamente encerradas durante a época balnear. Nem sequer lugares tradicionalmente associados ao cartão-postal dos Açores escaparam ao problema, como foi o caso da Caloura ou, um dos meus lugares de banhos prediletos, do Portinho do Faial da Terra.

Outros parecem ter adquirido já o estatuto de casos crónicos de insalubridade balnear, como são os casos da Vinha da Areia, Ribeira dos Pelames, Monte Verde, Mosteiros, Baixa da Areia e Ilhéu de Vila Franca do Campo.

Este último é particularmente significativo. Depois de um ano encerrado e de um sem-número de promessas atiradas ao vento por políticos de ambos os lados do azimute partidário, o Ilhéu, a pouco menos de um mês do final da época balnear, apresentava apenas quatro resultados, em dezassete análises realizadas, abaixo do limite legal. E, mais uma vez, terminará o ano sem que pareça existir uma explicação convincente para o problema, muito menos uma solução para o resolver.

Comissões de inquérito e grupos de trabalho. Investimentos de vulto em estações de tratamento e redes de esgotos anunciados por autarquias e Governo Regional. Declarações comovidas e juras de contrição. No fim, o resultado é invariavelmente o mesmo: nada. Ou, mais precisamente, mais poluição na água e ninguém verdadeiramente responsável por ela.

É difícil conciliar esta realidade com a imagem dos Açores como destino de natureza, sustentabilidade e excelência ambiental. Continuamos a vender natureza enquanto, literalmente, despejamos no mar a incapacidade de a proteger. Continuamos a dinamitar, a bombas de esgoto, o ouro que nos calhou na sorte, como se o mar não nos devolvesse sempre, mais cedo ou mais tarde, o lixo que teimamos em lhe atirar.

Esta irresponsabilidade coletiva, que tem nos responsáveis políticos os seus principais promotores, tornou-se quase uma assinatura da marca Açores. Lavamos a face em promessas e anúncios que, no fim, não dão em nada. Faz-se de conta que o problema é pontual, varre-se para debaixo do tapete e aguarda-se que a próxima análise, o próximo verão ou a próxima legislatura resolvam aquilo que todos sabem, mas teimam em não resolver.

Talvez seja mesmo uma sorte que as épocas balneares em São Miguel sejam tão ridiculamente curtas para uma ilha que se apresenta como destino de mar e de natureza. Porque, com análises destas, mais vale manter alguma distância da água. Não vá alguém mergulhar à procura dessa natureza pura e intacta açoriana e acabar, literalmente, a nadar no esgoto da nossa indiferença e incivilidade.

Ou então a estratégia é transformar a gastroenterite em produto de animação turística regional.

 

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Speakers' Corner 101

O fim da ideia europeia

A pandemia de Covid-19 foi, provavelmente, o acontecimento mais impactante da nossa história recente e as suas consequências estão ainda longe de ser totalmente compreendidas. Mas são inquestionáveis as profundas cicatrizes que deixou no nosso tecido social.

Para combater os efeitos da pandemia, diziam-nos os governos, a União Europeia concebeu um gigantesco plano de recuperação económica. António Costa, então xerife do passaporte digital, chamou-lhe primeiro "vitamina" e depois "bazuca", talvez já antevendo a economia de guerra em que a Europa está hoje mergulhada.

Assim nasceu o PRR, apresentado como o grande instrumento para recuperar e tornar resiliente uma economia em frangalhos. Transição climática, transição digital e infraestruturas constituíram os seus três grandes eixos.

Agora que celebram a sua execução com números cada vez mais triunfais, talvez valha a pena olhar para aquilo de que ninguém fala.

Segundo um estudo da McKinsey, os setores mais atingidos pelas medidas de combate à pandemia em Portugal foram precisamente os mais dependentes do contacto pessoal e da mobilidade: alojamento e restauração, cultura e entretenimento, comércio e transportes.

Turismo e Cultura são, em larga medida, um universo de micro, pequenas e médias empresas, empresários em nome individual e associações culturais. Gente que vive do seu trabalho e que, durante a pandemia, foi impedida de o fazer.

Apesar disso, os investimentos destinados à Cultura e ao Turismo representaram menos de 2% do total do PRR. E, em muitos casos, a sua execução concentrou-se no investimento público, na recuperação de museus, bibliotecas e outros equipamentos, enquanto os pequenos negócios, os artistas, os restaurantes, os alojamentos e as empresas de animação turística ficaram muito mais longe da bazuca prometida.

Dos 22,2 mil milhões de euros do envelope financeiro revisto do PRR, estes dois setores não receberam mais de 360 milhões, aproximadamente, sendo que a maioria desse dinheiro foi canalizada para as Escolas de Hotelaria e Turismo ou para a modernização digital de bibliotecas e museus do Estado.

Talvez seja precisamente esta distância abissal entre o dinheiro investido e a vida concreta das pessoas que ajude a explicar, de forma particularmente transparente, o estado atual da UE. Uma distância que se consubstanciou recentemente em dois acontecimentos aparentemente separados, mas paradigmáticos.

Na Islândia, mais de metade dos eleitores rejeitou a adesão à UE. Na Alemanha, a AfD, defendendo abertamente a saída da UE, venceu as eleições na Saxónia-Anhalt com cerca de 45% dos votos, conquistando também uma parcela expressiva do eleitorado jovem.

Perante estes resultados, os partidos tradicionais e boa parte da comunicação social recorrem ao catálogo habitual de palavras de choque: fascismo, xenofobia, populismo, antidemocratismo. Ninguém contesta a realidade desses perigos. Mas a questão que nos devia preocupar é porque estão tantos europeus a deixar de acreditar no projeto europeu?

Talvez porque a Europa se tornou extraordinariamente eficaz a falar de grandes transições, metas, fundos e guerras, mas cada vez menos capaz de responder às necessidades básicas da vida de cada um de nós.

Quando a política deixa de ser percebida como instrumento para melhorar a vida dos cidadãos e passa a ser uma máquina de impor prioridades e exigir sacrifícios, a democracia perde o seu chão.

O problema não é apenas a extrema-direita. É antes uma Europa que, ao afastar-se dos seus cidadãos, se afasta da sua própria razão de existir e acaba por fabricar o ressentimento que alimenta aqueles que a procuram destruir. E são os próprios líderes europeus que, paradoxalmente, se transformam nos seus principais coveiros.

De nada serve derramar dinheiro sobre os problemas. Porque, para um europeísta como eu, se esse dinheiro não chega a tocar na vida das pessoas é a própria ideia de Europa que morre.  

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Speakers' Corner 100

Calisto Elói e os seus clones

O verão de 2026 ficará na história como aquele que marcou o fim da silly season em Portugal. O habitual interregno estival da torrente informativa foi este ano interrompido por uma avalanche de casos e polémicas ao ponto de o próprio Luís Montenegro ter feito gala de não ir de férias, embora tenha sido visto pelo Algarve em gozo de banhos.

Agosto fez-se da debacle dos exames, dos sucessivos episódios envolvendo Luís Neves, da falsa licenciatura em Harvard de um deputado do Chega e de uma putativa invasão ao gabinete de André Ventura na Assembleia da República, da qual, estranhamente, nunca mais se ouviu falar. Enquanto isso, pelas ruas da capital, o crime violento ia dando lugar a alertas de tipo hollywoodiano nas televisões e a divertidos memes sobre o uso em comodato de viaturas e Rolex.

Por cá, o sempre presente bairrismo, a par das quedas inevitáveis do turismo, iam compondo o ciclo noticioso, enquanto no Facebook a Missão Açores 600 parece aquecer os ânimos das sempre efervescentes caixas de comentários.

Esta surpreendente animação estival do nosso ciclo político e noticioso, nesta era da pós-verdade em que os factos parecem valer menos do que a narrativa, revela algumas ligações subterrâneas que, sob o risco de serem tomadas por conspirações, dizem bastante sobre aquilo que verdadeiramente somos enquanto país.

Aquando da indigitação de Luís Neves, fui daqueles que expressaram alguma estupefação perante a perigosa porta giratória entre investigação policial e responsabilidade política, mesmo sem conhecer, à época, os episódios de facilitismo e amiguismo em que o ministro se viria a envolver.

O caso de Luís Neves demonstra esta tão portuguesa tendência para o desenrascanço que, se na vida privada pode ser um atributo, na vida pública é uma desgraça. Mas há outra dimensão do caso que nos deveria perturbar enquanto cidadãos. E já nem falo das sempre sussurradas ligações entre Maçonaria e poder, mas das delações e ajustes de contas internos na própria Polícia Judiciária e das suas ligações perniciosas à comunicação social e círculos de pressão e influência política cuja natureza permanece nebulosa.

Este caso Luís Neves, denunciado pela Media Capital através do Sol e da TVI/CNN, cujo principal acionista é o empresário Mário Ferreira, levanta a hipótese preocupante de um eventual “ajuste de contas” envolvendo o empresário, a braços com um processo judicial de fraude fiscal que remonta aos anais do nosso bem conhecido ferry Atlântida. Importa recordar que, à época dessas investigações, Luís Neves era diretor da PJ.

Outro episódio rocambolesco prende-se com o atual diretor da PJ, Carlos Cabreiro, envolvido numa denúncia criminal relacionada com alegadas escutas ilegais no processo do hacker Rui Pinto, o Football Leaks. Denúncia não anónima, mas apresentada ao Ministério Público por um colega da própria PJ, Davide Freitas, que estará também a ser investigado por alegado acesso ao sistema informático interno da Polícia Judiciária para obter informação sobre o célebre caso da galera com produtos químicos entregue aos cuidados da Construbarcelos. Lembram-se?

Num país que tem como primeiro-ministro Luís “Spinumviva” Montenegro, tudo isto poderia ser apenas fado, não fosse ficar exposto, à vista de todos, o nível de briga de porteiras em que parece ter mergulhado a nossa Polícia Judiciária, com conflitos internos transformados em matéria de horário nobre e aparentemente atravessados por interesses políticos cuja origem é, no mínimo, questionável.

Nunca o país se aproximou tanto de A Queda de um Anjo, de Camilo. Um país onde os protagonistas da vida pública parecem cada vez mais uma caricatura de si próprios, onde a intriga substitui a política, o expediente substitui a regra e as conveniências pessoais se sobrepõem demasiadas vezes ao interesse público.

Não foi a silly season que acabou. Foram os clones de Calisto Elói que tomaram conta do país.