Calisto Elói e os seus clones
O verão de 2026 ficará na história como aquele que marcou o
fim da silly season em Portugal. O habitual interregno estival da
torrente informativa foi este ano interrompido por uma avalanche de casos e polémicas
ao ponto de o próprio Luís Montenegro ter feito gala de não ir de férias,
embora tenha sido visto pelo Algarve em gozo de banhos.
Agosto fez-se da debacle dos exames, dos sucessivos
episódios envolvendo Luís Neves, da falsa licenciatura em Harvard de um
deputado do Chega e de uma putativa invasão ao gabinete de André Ventura na
Assembleia da República, da qual, estranhamente, nunca mais se ouviu falar.
Enquanto isso, pelas ruas da capital, o crime violento ia dando lugar a alertas
de tipo hollywoodiano nas televisões e a divertidos memes sobre o uso em
comodato de viaturas e Rolex.
Por cá, o sempre presente bairrismo, a par das quedas
inevitáveis do turismo, iam compondo o ciclo noticioso, enquanto no Facebook a
Missão Açores 600 parece aquecer os ânimos das sempre efervescentes caixas de
comentários.
Esta surpreendente animação estival do nosso ciclo político
e noticioso, nesta era da pós-verdade em que os factos parecem valer menos do
que a narrativa, revela algumas ligações subterrâneas que, sob o risco de serem
tomadas por conspirações, dizem bastante sobre aquilo que verdadeiramente somos
enquanto país.
Aquando da indigitação de Luís Neves, fui daqueles que
expressaram alguma estupefação perante a perigosa porta giratória entre
investigação policial e responsabilidade política, mesmo sem conhecer, à época,
os episódios de facilitismo e amiguismo em que o ministro se viria a envolver.
O caso de Luís Neves demonstra esta tão portuguesa tendência
para o desenrascanço que, se na vida privada pode ser um atributo, na vida
pública é uma desgraça. Mas há outra dimensão do caso que nos deveria perturbar
enquanto cidadãos. E já nem falo das sempre sussurradas ligações entre
Maçonaria e poder, mas das delações e ajustes de contas internos na própria
Polícia Judiciária e das suas ligações perniciosas à comunicação social e
círculos de pressão e influência política cuja natureza permanece nebulosa.
Este caso Luís Neves, denunciado pela Media Capital através do Sol
e da TVI/CNN, cujo principal acionista é o empresário Mário Ferreira, levanta a
hipótese preocupante de um eventual “ajuste de contas” envolvendo o empresário,
a braços com um processo judicial de fraude fiscal que remonta aos anais do
nosso bem conhecido ferry Atlântida. Importa recordar que, à época
dessas investigações, Luís Neves era diretor da PJ.
Outro episódio rocambolesco prende-se com o atual diretor da
PJ, Carlos Cabreiro, envolvido numa denúncia criminal relacionada com alegadas
escutas ilegais no processo do hacker Rui Pinto, o Football Leaks. Denúncia
não anónima, mas apresentada ao Ministério Público por um colega da própria PJ,
Davide Freitas, que estará também a ser investigado por alegado acesso ao
sistema informático interno da Polícia Judiciária para obter informação sobre o
célebre caso da galera com produtos químicos entregue aos cuidados da
Construbarcelos. Lembram-se?
Num país que tem como primeiro-ministro Luís “Spinumviva”
Montenegro, tudo isto poderia ser apenas fado, não fosse ficar exposto, à vista
de todos, o nível de briga de porteiras em que parece ter mergulhado a nossa
Polícia Judiciária, com conflitos internos transformados em matéria de horário
nobre e aparentemente atravessados por interesses políticos cuja origem é, no
mínimo, questionável.
Nunca o país se aproximou tanto de A Queda de um Anjo,
de Camilo. Um país onde os protagonistas da vida pública parecem cada vez mais
uma caricatura de si próprios, onde a intriga substitui a política, o
expediente substitui a regra e as conveniências pessoais se sobrepõem
demasiadas vezes ao interesse público.
Não foi a silly season que acabou. Foram os clones de
Calisto Elói que tomaram conta do país.

