quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Speakers' Corner 100

Calisto Elói e os seus clones

O verão de 2026 ficará na história como aquele que marcou o fim da silly season em Portugal. O habitual interregno estival da torrente informativa foi este ano interrompido por uma avalanche de casos e polémicas ao ponto de o próprio Luís Montenegro ter feito gala de não ir de férias, embora tenha sido visto pelo Algarve em gozo de banhos.

Agosto fez-se da debacle dos exames, dos sucessivos episódios envolvendo Luís Neves, da falsa licenciatura em Harvard de um deputado do Chega e de uma putativa invasão ao gabinete de André Ventura na Assembleia da República, da qual, estranhamente, nunca mais se ouviu falar. Enquanto isso, pelas ruas da capital, o crime violento ia dando lugar a alertas de tipo hollywoodiano nas televisões e a divertidos memes sobre o uso em comodato de viaturas e Rolex.

Por cá, o sempre presente bairrismo, a par das quedas inevitáveis do turismo, iam compondo o ciclo noticioso, enquanto no Facebook a Missão Açores 600 parece aquecer os ânimos das sempre efervescentes caixas de comentários.

Esta surpreendente animação estival do nosso ciclo político e noticioso, nesta era da pós-verdade em que os factos parecem valer menos do que a narrativa, revela algumas ligações subterrâneas que, sob o risco de serem tomadas por conspirações, dizem bastante sobre aquilo que verdadeiramente somos enquanto país.

Aquando da indigitação de Luís Neves, fui daqueles que expressaram alguma estupefação perante a perigosa porta giratória entre investigação policial e responsabilidade política, mesmo sem conhecer, à época, os episódios de facilitismo e amiguismo em que o ministro se viria a envolver.

O caso de Luís Neves demonstra esta tão portuguesa tendência para o desenrascanço que, se na vida privada pode ser um atributo, na vida pública é uma desgraça. Mas há outra dimensão do caso que nos deveria perturbar enquanto cidadãos. E já nem falo das sempre sussurradas ligações entre Maçonaria e poder, mas das delações e ajustes de contas internos na própria Polícia Judiciária e das suas ligações perniciosas à comunicação social e círculos de pressão e influência política cuja natureza permanece nebulosa.

Este caso Luís Neves, denunciado pela Media Capital através do Sol e da TVI/CNN, cujo principal acionista é o empresário Mário Ferreira, levanta a hipótese preocupante de um eventual “ajuste de contas” envolvendo o empresário, a braços com um processo judicial de fraude fiscal que remonta aos anais do nosso bem conhecido ferry Atlântida. Importa recordar que, à época dessas investigações, Luís Neves era diretor da PJ.

Outro episódio rocambolesco prende-se com o atual diretor da PJ, Carlos Cabreiro, envolvido numa denúncia criminal relacionada com alegadas escutas ilegais no processo do hacker Rui Pinto, o Football Leaks. Denúncia não anónima, mas apresentada ao Ministério Público por um colega da própria PJ, Davide Freitas, que estará também a ser investigado por alegado acesso ao sistema informático interno da Polícia Judiciária para obter informação sobre o célebre caso da galera com produtos químicos entregue aos cuidados da Construbarcelos. Lembram-se?

Num país que tem como primeiro-ministro Luís “Spinumviva” Montenegro, tudo isto poderia ser apenas fado, não fosse ficar exposto, à vista de todos, o nível de briga de porteiras em que parece ter mergulhado a nossa Polícia Judiciária, com conflitos internos transformados em matéria de horário nobre e aparentemente atravessados por interesses políticos cuja origem é, no mínimo, questionável.

Nunca o país se aproximou tanto de A Queda de um Anjo, de Camilo. Um país onde os protagonistas da vida pública parecem cada vez mais uma caricatura de si próprios, onde a intriga substitui a política, o expediente substitui a regra e as conveniências pessoais se sobrepõem demasiadas vezes ao interesse público.

Não foi a silly season que acabou. Foram os clones de Calisto Elói que tomaram conta do país.