Das águas balneares
Agora que o verão que nunca verdadeiramente começou começa
oficialmente a acabar, talvez seja tempo de fazer um breve balanço do que fica
desta temporada estival.
Um dos indicadores mais reveladores, mais até do que essas
multidões de turistas que também nunca chegaram, é a velha questão da qualidade
das águas balneares. Um problema que nos atormenta ano após ano e que, este
verão, voltou a revelar uma dimensão particularmente preocupante.
Das vinte e cinco águas balneares classificadas em São
Miguel, apenas uma, as Piscinas Naturais da Lagoa, conseguiu apresentar uma
folha limpa nas análises de qualidade da água. Se juntarmos as treze águas
balneares não classificadas, mas igualmente sujeitas a análises periódicas,
apenas mais uma, a Praia do Lombo Gordo, no Nordeste, conseguiu passar com
distinção no teste do papel higiénico marítimo.
Ainda sem alguns dos resultados finais, que à data em que
escrevo não foram publicados pelo competente departamento do Governo Regional,
uma leitura preliminar dos dados disponíveis deixa-nos um quadro francamente
inquietante.
Das trinta e oito localizações analisadas, sete
apresentaram, pelo menos uma vez, valores de Escherichia coli ou Enterococos
superiores a 500, quando o valor de referência é inferior a 15. Pelo menos
quatro estiveram periodicamente encerradas durante a época balnear. Nem sequer
lugares tradicionalmente associados ao cartão-postal dos Açores escaparam ao
problema, como foi o caso da Caloura ou, um dos meus lugares de banhos
prediletos, do Portinho do Faial da Terra.
Outros parecem ter adquirido já o estatuto de casos crónicos
de insalubridade balnear, como são os casos da Vinha da Areia, Ribeira dos
Pelames, Monte Verde, Mosteiros, Baixa da Areia e Ilhéu de Vila Franca do
Campo.
Este último é particularmente significativo. Depois de um
ano encerrado e de um sem-número de promessas atiradas ao vento por políticos
de ambos os lados do azimute partidário, o Ilhéu, a pouco menos de um mês do
final da época balnear, apresentava apenas quatro resultados, em dezassete
análises realizadas, abaixo do limite legal. E, mais uma vez, terminará o ano
sem que pareça existir uma explicação convincente para o problema, muito menos
uma solução para o resolver.
Comissões de inquérito e grupos de trabalho. Investimentos
de vulto em estações de tratamento e redes de esgotos anunciados por autarquias
e Governo Regional. Declarações comovidas e juras de contrição. No fim, o
resultado é invariavelmente o mesmo: nada. Ou, mais precisamente, mais poluição
na água e ninguém verdadeiramente responsável por ela.
É difícil conciliar esta realidade com a imagem dos Açores
como destino de natureza, sustentabilidade e excelência ambiental. Continuamos
a vender natureza enquanto, literalmente, despejamos no mar a incapacidade de a
proteger. Continuamos a dinamitar, a bombas de esgoto, o ouro que nos calhou na
sorte, como se o mar não nos devolvesse sempre, mais cedo ou mais tarde, o lixo
que teimamos em lhe atirar.
Esta irresponsabilidade coletiva, que tem nos responsáveis
políticos os seus principais promotores, tornou-se quase uma assinatura da
marca Açores. Lavamos a face em promessas e anúncios que, no fim, não dão em
nada. Faz-se de conta que o problema é pontual, varre-se para debaixo do tapete
e aguarda-se que a próxima análise, o próximo verão ou a próxima legislatura
resolvam aquilo que todos sabem, mas teimam em não resolver.
Talvez seja mesmo uma sorte que as épocas balneares em São
Miguel sejam tão ridiculamente curtas para uma ilha que se apresenta como
destino de mar e de natureza. Porque, com análises destas, mais vale manter
alguma distância da água. Não vá alguém mergulhar à procura dessa natureza pura
e intacta açoriana e acabar, literalmente, a nadar no esgoto da nossa
indiferença e incivilidade.
Ou então a estratégia é transformar a gastroenterite em
produto de animação turística regional.

