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quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Speakers' Corner 102

Das águas balneares

Agora que o verão que nunca verdadeiramente começou começa oficialmente a acabar, talvez seja tempo de fazer um breve balanço do que fica desta temporada estival.

Um dos indicadores mais reveladores, mais até do que essas multidões de turistas que também nunca chegaram, é a velha questão da qualidade das águas balneares. Um problema que nos atormenta ano após ano e que, este verão, voltou a revelar uma dimensão particularmente preocupante.

Das vinte e cinco águas balneares classificadas em São Miguel, apenas uma, as Piscinas Naturais da Lagoa, conseguiu apresentar uma folha limpa nas análises de qualidade da água. Se juntarmos as treze águas balneares não classificadas, mas igualmente sujeitas a análises periódicas, apenas mais uma, a Praia do Lombo Gordo, no Nordeste, conseguiu passar com distinção no teste do papel higiénico marítimo.

Ainda sem alguns dos resultados finais, que à data em que escrevo não foram publicados pelo competente departamento do Governo Regional, uma leitura preliminar dos dados disponíveis deixa-nos um quadro francamente inquietante.

Das trinta e oito localizações analisadas, sete apresentaram, pelo menos uma vez, valores de Escherichia coli ou Enterococos superiores a 500, quando o valor de referência é inferior a 15. Pelo menos quatro estiveram periodicamente encerradas durante a época balnear. Nem sequer lugares tradicionalmente associados ao cartão-postal dos Açores escaparam ao problema, como foi o caso da Caloura ou, um dos meus lugares de banhos prediletos, do Portinho do Faial da Terra.

Outros parecem ter adquirido já o estatuto de casos crónicos de insalubridade balnear, como são os casos da Vinha da Areia, Ribeira dos Pelames, Monte Verde, Mosteiros, Baixa da Areia e Ilhéu de Vila Franca do Campo.

Este último é particularmente significativo. Depois de um ano encerrado e de um sem-número de promessas atiradas ao vento por políticos de ambos os lados do azimute partidário, o Ilhéu, a pouco menos de um mês do final da época balnear, apresentava apenas quatro resultados, em dezassete análises realizadas, abaixo do limite legal. E, mais uma vez, terminará o ano sem que pareça existir uma explicação convincente para o problema, muito menos uma solução para o resolver.

Comissões de inquérito e grupos de trabalho. Investimentos de vulto em estações de tratamento e redes de esgotos anunciados por autarquias e Governo Regional. Declarações comovidas e juras de contrição. No fim, o resultado é invariavelmente o mesmo: nada. Ou, mais precisamente, mais poluição na água e ninguém verdadeiramente responsável por ela.

É difícil conciliar esta realidade com a imagem dos Açores como destino de natureza, sustentabilidade e excelência ambiental. Continuamos a vender natureza enquanto, literalmente, despejamos no mar a incapacidade de a proteger. Continuamos a dinamitar, a bombas de esgoto, o ouro que nos calhou na sorte, como se o mar não nos devolvesse sempre, mais cedo ou mais tarde, o lixo que teimamos em lhe atirar.

Esta irresponsabilidade coletiva, que tem nos responsáveis políticos os seus principais promotores, tornou-se quase uma assinatura da marca Açores. Lavamos a face em promessas e anúncios que, no fim, não dão em nada. Faz-se de conta que o problema é pontual, varre-se para debaixo do tapete e aguarda-se que a próxima análise, o próximo verão ou a próxima legislatura resolvam aquilo que todos sabem, mas teimam em não resolver.

Talvez seja mesmo uma sorte que as épocas balneares em São Miguel sejam tão ridiculamente curtas para uma ilha que se apresenta como destino de mar e de natureza. Porque, com análises destas, mais vale manter alguma distância da água. Não vá alguém mergulhar à procura dessa natureza pura e intacta açoriana e acabar, literalmente, a nadar no esgoto da nossa indiferença e incivilidade.

Ou então a estratégia é transformar a gastroenterite em produto de animação turística regional.