Um inverno que já está aí
Estes são os factos:
Em setembro de 2023, a Ryanair reduziu a sua operação de
inverno nos Açores. Em novembro de 2025, naquele seu habitual estilo rufião, o
CEO da companhia anunciou a retirada de todas as operações de e para os Açores
a partir de março de 2026, apontando o dedo às taxas aeroportuárias e à alegada
inação do Governo.
Nos primeiros sete meses de 2026, os Açores perderam 3,7%
das dormidas e 3,5% dos hóspedes. Em agosto, os passageiros desembarcados nos
aeroportos regionais caíram mais 6,2% em termos homólogos, mantendo uma
tendência de descida que já leva dez meses consecutivos.
A Câmara do Comércio estima que a saída da Ryanair represente
um impacto económico negativo entre 140 e 160 milhões de euros, com uma redução
do PIB regional próxima dos 1,7%.
Depois de uma reunião de emergência da Associação do
Alojamento Local dos Açores, na semana passada, finalmente vários responsáveis
políticos parecem ter acordado para a realidade. A Secretária Regional do
Turismo anunciou uma “campanha de inverno no mercado nacional” e o líder
da oposição marcou uma reunião em Lisboa com responsáveis da Ryanair e da
easyJet.
Ouvindo as declarações da Secretária Regional, parecia
evidente o seu embaraço. A campanha seria lançada nos “próximos dias...
meses”. Não explicou como, quando, com que meios, nem que objetivos.
Podemos continuar a discutir durante meses quem teve razão e
quem não fez o que devia ter feito. Seria, aliás, interessante esclarecer os
meandros da saída da Ryanair e a eventual ineficácia da resposta das entidades
públicas responsáveis. Talvez seja boa matéria para uma comissão parlamentar.
Mas não é isso que o turismo precisa neste momento. O que o setor
precisa é de aviões, passageiros e medidas.
A primeira prioridade deveria ser a conectividade aérea, com
foco particular no preço. Apesar da capacidade prevista para o próximo inverno
ter crescido, uma consulta aos principais agregadores mostra que com a saída da
Ryanair o preço de um voo entre Lisboa e Ponta Delgada no inverno aumentou
cerca de 90%.
Se querem fazer alguma coisa, comecem por aqui:
Uma campanha conjunta de promoção e estímulo à procura,
envolvendo SATA e TAP, com o objetivo concreto de garantir uma oferta
significativa de lugares entre Lisboa e Ponta Delgada a preços abaixo do teto
simbólico dos 100 euros, ida e volta.
Campanhas digitais e nos aeroportos dos principais mercados
emissores europeus, Reino Unido, Alemanha, Países Baixos, França e Espanha, e
outros países do norte da europa, com férias no inverno e poder de compra, destinadas
a manter a notoriedade do destino e, sobretudo, a estimular reservas para a
época baixa.
Aliás, nem seria preciso inventar muito. Enquanto boa parte
da Europa entra no inverno com temperaturas negativas, os Açores continuam a
oferecer um clima oceânico extraordinariamente ameno.
Até deixo aqui, gratuitamente, um slogan: Azores - Real
feel: mild and peaceful.
Com um pequeno número cintilante por baixo: 15ºC.
Depois, medidas imediatas de apoio às empresas, manutenção
dos postos de trabalho, mecanismos de lay-off e medidas temporárias de
compensação dos aumentos dos custos de contexto, energia e outros custos fixos.
Por outro lado, e com especial relevância, é urgente
restabelecer a concorrência nas ligações aéreas com Ponta Delgada. As
associações empresariais do setor, em articulação com a ANA/Vinci e a AMISM,
deveriam iniciar imediatamente contactos com companhias low cost para
restabelecer uma ligação com São Miguel. Se o Governo, e quem este tutela, não
sabe, não consegue ou não quer fazer, outros podem e devem fazer por ele.
Porque o turismo, hoje, já não é uma brincadeira, é um pilar
fundamental da economia açoriana. Representa cerca de 20% do VAB, 17% do PIB e
17% do emprego.
Deixá-lo cair, seja por incúria ou incompetência, não é
apenas deixar cair uma indústria. É afundar ainda mais a Região num horizonte
de desigualdade e de pobreza.
E o inverno já está aí.


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