quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Speakers' Corner 104

Um inverno que já está aí

Estes são os factos:

Em setembro de 2023, a Ryanair reduziu a sua operação de inverno nos Açores. Em novembro de 2025, naquele seu habitual estilo rufião, o CEO da companhia anunciou a retirada de todas as operações de e para os Açores a partir de março de 2026, apontando o dedo às taxas aeroportuárias e à alegada inação do Governo.

Nos primeiros sete meses de 2026, os Açores perderam 3,7% das dormidas e 3,5% dos hóspedes. Em agosto, os passageiros desembarcados nos aeroportos regionais caíram mais 6,2% em termos homólogos, mantendo uma tendência de descida que já leva dez meses consecutivos.

A Câmara do Comércio estima que a saída da Ryanair represente um impacto económico negativo entre 140 e 160 milhões de euros, com uma redução do PIB regional próxima dos 1,7%.

Depois de uma reunião de emergência da Associação do Alojamento Local dos Açores, na semana passada, finalmente vários responsáveis políticos parecem ter acordado para a realidade. A Secretária Regional do Turismo anunciou uma “campanha de inverno no mercado nacional” e o líder da oposição marcou uma reunião em Lisboa com responsáveis da Ryanair e da easyJet.

Ouvindo as declarações da Secretária Regional, parecia evidente o seu embaraço. A campanha seria lançada nos “próximos dias... meses”. Não explicou como, quando, com que meios, nem que objetivos.

Podemos continuar a discutir durante meses quem teve razão e quem não fez o que devia ter feito. Seria, aliás, interessante esclarecer os meandros da saída da Ryanair e a eventual ineficácia da resposta das entidades públicas responsáveis. Talvez seja boa matéria para uma comissão parlamentar.

Mas não é isso que o turismo precisa neste momento. O que o setor precisa é de aviões, passageiros e medidas.

A primeira prioridade deveria ser a conectividade aérea, com foco particular no preço. Apesar da capacidade prevista para o próximo inverno ter crescido, uma consulta aos principais agregadores mostra que com a saída da Ryanair o preço de um voo entre Lisboa e Ponta Delgada no inverno aumentou cerca de 90%.

Se querem fazer alguma coisa, comecem por aqui:

Uma campanha conjunta de promoção e estímulo à procura, envolvendo SATA e TAP, com o objetivo concreto de garantir uma oferta significativa de lugares entre Lisboa e Ponta Delgada a preços abaixo do teto simbólico dos 100 euros, ida e volta.

Campanhas digitais e nos aeroportos dos principais mercados emissores europeus, Reino Unido, Alemanha, Países Baixos, França e Espanha, e outros países do norte da europa, com férias no inverno e poder de compra, destinadas a manter a notoriedade do destino e, sobretudo, a estimular reservas para a época baixa.

Aliás, nem seria preciso inventar muito. Enquanto boa parte da Europa entra no inverno com temperaturas negativas, os Açores continuam a oferecer um clima oceânico extraordinariamente ameno.

Até deixo aqui, gratuitamente, um slogan: Azores - Real feel: mild and peaceful.

Com um pequeno número cintilante por baixo: 15ºC.

Depois, medidas imediatas de apoio às empresas, manutenção dos postos de trabalho, mecanismos de lay-off e medidas temporárias de compensação dos aumentos dos custos de contexto, energia e outros custos fixos.

Por outro lado, e com especial relevância, é urgente restabelecer a concorrência nas ligações aéreas com Ponta Delgada. As associações empresariais do setor, em articulação com a ANA/Vinci e a AMISM, deveriam iniciar imediatamente contactos com companhias low cost para restabelecer uma ligação com São Miguel. Se o Governo, e quem este tutela, não sabe, não consegue ou não quer fazer, outros podem e devem fazer por ele.

Porque o turismo, hoje, já não é uma brincadeira, é um pilar fundamental da economia açoriana. Representa cerca de 20% do VAB, 17% do PIB e 17% do emprego.

Deixá-lo cair, seja por incúria ou incompetência, não é apenas deixar cair uma indústria. É afundar ainda mais a Região num horizonte de desigualdade e de pobreza.

E o inverno já está aí.

 

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