quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Speakers' Corner 109

Dias de chumbo

Os últimos dias ficaram marcados por um punhado de acontecimentos que revelam, de forma particularmente impressiva, o estado sinistro a que chegou a Região e o país.

No continente prosseguem os protestos pela habitação, entre a surreal postura do governo, as bastonadas avulsas da PSP e uma sentença de um tribunal que fez de uma tenda um símbolo coletivo de resistência e de nós todos Renata Cambra.

Nas ilhas, o fim do verão IATA assinalou o início daquele que ameaça ser um dos piores invernos turísticos das últimas décadas. Com as ligações aéreas ao continente entregues ao arbítrio do duopólio SATA/TAP e passagens a rondar os 400 euros, mesmo para residentes, viajar de e para as ilhas tornou-se um luxo árabe, reservado a uns poucos privilegiados com folga no salário para esperar pelo reembolso.

Ainda na senda dos luxos, o início do mês trouxe novos aumentos dos combustíveis, com o gasóleo a atingir os 1,994 euros por litro, mais 52 cêntimos do que em janeiro. Um corriqueiro depósito de cinquenta litros, que no início do ano custava cerca de 74 euros, aproxima-se agora dos 100. Já o gás, numa terra de tantas botijas, aumentou uns astronómicos 39,1 cêntimos por quilo, apertando ainda mais o garrote ao orçamento das famílias.

Já o Governo, e os partidos que o sustentam, parece empenhado em fingir que nada se passa e que os responsáveis por este descalabro são todos, menos eles. Da guerra de Trump ao desquite com Montenegro, tudo o que de mal acontece aos Açores é, na narrativa de Bolieiro, culpa de inimigos externos. Curiosa posição para quem, nem há poucos meses, aceitou presidir à mesa do congresso nacional do PSD, a convite do mesmo primeiro-ministro que agora acusa de lhe apertar o “garrote financeiro”.

Bolieiro tornou-se refém da sua própria estratégia, encurralado entre os desmandos de uma coligação moribunda e a incompetência política dos seus secretários. Turismo e Finanças registam duas das maiores debacles governativas das últimas décadas. A primeira, com um setor turístico hipotecado e em queda que nem a promessa de mais milhões para a promoção conseguirá salvar; e o segundo, que, depois de prometer défice zero e ausência de endividamento, viu o défice regional atingir quase 300 milhões de euros em 2025 e a dívida ultrapassar os 3.900 milhões no segundo trimestre de 2026.

Também nesta viragem de mês, quais castanhas girando no assador, o PS Açores viu anunciada, quase em ato contínuo, a abstenção no orçamento e a continuação da sua liderança. Num processo de contornos vagamente soviéticos, com limitações kafkianas à apresentação de listas de delegados, o presumível líder da oposição regressou, na sua habitual ponte aérea de Lisboa, qual Jano de duas faces, para representar um incompreensível teatro político: de um lado, deixar passar um orçamento que considera péssimo e irrealizável; do outro, apresentar-se como candidato a governar a Região daqui a dois anos.

Cesar, tenta iludir as hostes com grupos de independentes que reúnem em segredo e estados gerais prometidos desde a derrota autárquica, mas que ninguém viu nem sabe exatamente o que são. Mais depressa se organizou um Congresso da Autonomia do que o PS Açores conseguiu apresentar uma alternativa para si próprio, quanto mais para o futuro da Região, num partido que infelizmente continua prisioneiro de um sobrenome.

Enquanto os dirigentes socialistas vão tratando das suas vidinhas, aguardando, quem sabe, que o poder lhes caia nas mãos de tão podre, os Açores vão definhando. Os preços sobem, as oportunidades diminuem e a resignação transforma-se lentamente em revolta, num inverno que ameaça ser bem mais longo do que o calendário anuncia. E por entre o peso do clima, o Chega, apesar da sua liderança histriónica, ou talvez por causa dela, vai espreitando pelas frestas, acumulando os votos da indignação e do protesto.

São de chumbo os dias que vamos vivendo.