quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Speakers' Corner 106

Passos Coelho, o presbítero

Portugal sempre foi pródigo em figuras redentoras e salvíficas. Desde Egas Moniz até Salazar, passando pelo símbolo maior desse destino eternamente adiado que foi D. Sebastião, a nossa História sempre se fez, em proporções significativas e semelhantes, de ambição, martírio e decadência.

Na literatura, Alexandre Herculano desenhou-nos, Eurico, o Presbítero, figura marcante de sentimento trágico e visão épica, para refletir sobre a decadência política, o sacrifício individual e a identidade nacional.

No passado domingo, o ex-primeiro-ministro Pedro Passos Coelho (PPC), saiu por entre o nevoeiro, para uma extensa entrevista a Maria João Avillez. Qual presbítero do PSD, apresentou-se ao país como símbolo do sacrifício, da fé e do dever perante a pátria em crise, reclamando para si o velho ímpeto reformista de quem se julga investido de uma missão superior.

Afirmando não ser candidato a nada, não deixou de se apresentar como eventual alternativa, caso o seu partido não consiga responder às necessidades do país, ou àquilo que ele entende serem as necessidades do país. O que, vindo do homem que quis ir além da Troika, não deixa de ser uma perspetiva preocupante. Tudo para oferecer, nas suas próprias palavras, algo que «não seja mais do mesmo», numa crítica aberta a Luís Montenegro, que, num exercício de requintado cinismo, chegou a comparar a António Costa.

Mas a parte mais substantiva da entrevista de PPC, creio eu, foi a defesa de um entendimento alargado entre as direitas, assumindo abertamente a possibilidade de uma aproximação ao CHEGA!, acompanhada de elogios rasgados ao seu líder, André Ventura, a quem reconheceu «bastante mérito» e um «poder de iniciativa notável».

A verdade é que PPC tem uma responsabilidade na legitimação política de André Ventura, com a hoje quase esquecida candidatura de Ventura à Câmara de Loures, onde germinou a retórica anticigana que viria a ser uma das matrizes do seu discurso político. E da qual PPC nunca se distanciou.

Mas o problema, digo eu, está em compreender até que ponto as várias direitas portuguesas são verdadeiramente conciliáveis. Poderão Maria João Avillez e Rita Matias tomar chá na mesma mansão sem se incompatibilizarem estruturalmente ao primeiro dedo espetado na chávena ou ao primeiro pires deixado em cima da mesa?

Como explica Miguel Carvalho, no seu Por Dentro do Chega, o partido de André Ventura é uma amálgama de ressentimentos, frustrações e pulsões autoritárias, onde se cruzam as mais diversas formas de contestação social e política. Uma espécie de caixa de ressonância de todos os descontentamentos e ânsias de punição.

A base mais radical do CHEGA! não pretende propriamente reformar o país, mas destruir e castigar aquilo que identifica como o sistema. E PPC é um dos símbolos maiores desse sistema.

O antigo líder da JSD, com um percurso profissional anterior à política que nunca deixou de suscitar controvérsia, feito primeiro-ministro da Troika, protagonista de uma política de austeridade que sacrificou setores inteiros da economia nacional, reduziu direitos de trabalhadores e pensionistas e promoveu a privatização de empresas estratégicas do Estado, amigo do peito de Miguel Relvas, essa espécie de Conselheiro Acácio dos tempos modernos, por mais presbítero que agora se apresente, continua a representar muito daquilo que o eleitorado mais radical do CHEGA! diz querer combater.

PPC parece sentir-se traído pela História. Terminado o seu retiro conventual, regressa agora à praça pública como uma espécie de cavaleiro negro da grande massa conservadora nacional, investido da missão de restaurar uma ordem política que considera perdida e da qual se sente o salvador.

Resta saber se entre o criador e a criatura, as novas massas da direita populista e demagógica não acabarão por escolher o filho em lugar do pai, a destruição em vez da reforma e o ressentimento em vez da redenção.

 

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