Passos Coelho, o presbítero
Portugal sempre foi pródigo em figuras redentoras e
salvíficas. Desde Egas Moniz até Salazar, passando pelo símbolo maior desse
destino eternamente adiado que foi D. Sebastião, a nossa História sempre se fez,
em proporções significativas e semelhantes, de ambição, martírio e decadência.
Na literatura, Alexandre Herculano desenhou-nos, Eurico,
o Presbítero, figura marcante de sentimento trágico e visão épica, para
refletir sobre a decadência política, o sacrifício individual e a identidade
nacional.
No passado domingo, o ex-primeiro-ministro Pedro Passos
Coelho (PPC), saiu por entre o nevoeiro, para uma extensa entrevista a Maria
João Avillez. Qual presbítero do PSD, apresentou-se ao país como símbolo do
sacrifício, da fé e do dever perante a pátria em crise, reclamando para si o
velho ímpeto reformista de quem se julga investido de uma missão superior.
Afirmando não ser candidato a nada, não deixou de se
apresentar como eventual alternativa, caso o seu partido não consiga responder
às necessidades do país, ou àquilo que ele entende serem as necessidades do
país. O que, vindo do homem que quis ir além da Troika, não deixa de ser uma
perspetiva preocupante. Tudo para oferecer, nas suas próprias palavras, algo
que «não seja mais do mesmo», numa crítica aberta a Luís Montenegro, que, num
exercício de requintado cinismo, chegou a comparar a António Costa.
Mas a parte mais substantiva da entrevista de PPC, creio eu,
foi a defesa de um entendimento alargado entre as direitas, assumindo abertamente
a possibilidade de uma aproximação ao CHEGA!, acompanhada de elogios rasgados
ao seu líder, André Ventura, a quem reconheceu «bastante mérito» e um «poder de
iniciativa notável».
A verdade é que PPC tem uma responsabilidade na legitimação
política de André Ventura, com a hoje quase esquecida candidatura de Ventura à
Câmara de Loures, onde germinou a retórica anticigana que viria a ser uma das
matrizes do seu discurso político. E da qual PPC nunca se distanciou.
Mas o problema, digo eu, está em compreender até que ponto
as várias direitas portuguesas são verdadeiramente conciliáveis. Poderão Maria
João Avillez e Rita Matias tomar chá na mesma mansão sem se incompatibilizarem
estruturalmente ao primeiro dedo espetado na chávena ou ao primeiro pires
deixado em cima da mesa?
Como explica Miguel Carvalho, no seu Por Dentro do Chega,
o partido de André Ventura é uma amálgama de ressentimentos, frustrações e
pulsões autoritárias, onde se cruzam as mais diversas formas de contestação
social e política. Uma espécie de caixa de ressonância de todos os
descontentamentos e ânsias de punição.
A base mais radical do CHEGA! não pretende propriamente
reformar o país, mas destruir e castigar aquilo que identifica como o sistema.
E PPC é um dos símbolos maiores desse sistema.
O antigo líder da JSD, com um percurso profissional anterior
à política que nunca deixou de suscitar controvérsia, feito primeiro-ministro
da Troika, protagonista de uma política de austeridade que sacrificou setores
inteiros da economia nacional, reduziu direitos de trabalhadores e pensionistas
e promoveu a privatização de empresas estratégicas do Estado, amigo do peito de
Miguel Relvas, essa espécie de Conselheiro Acácio dos tempos modernos, por mais
presbítero que agora se apresente, continua a representar muito daquilo que o
eleitorado mais radical do CHEGA! diz querer combater.
PPC parece sentir-se traído pela História. Terminado o seu
retiro conventual, regressa agora à praça pública como uma espécie de cavaleiro
negro da grande massa conservadora nacional, investido da missão de restaurar
uma ordem política que considera perdida e da qual se sente o salvador.
Resta saber se entre o criador e a criatura, as novas massas
da direita populista e demagógica não acabarão por escolher o filho em lugar do
pai, a destruição em vez da reforma e o ressentimento em vez da redenção.


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