O lugar do outro
Em 1324, Mansa Musa, imperador do Mali, tido como um dos
homens mais ricos da história, partiu em peregrinação a Meca com uma
esplendorosa comitiva carregada de ouro. Dizem as crónicas que gastou e
distribuiu tanto no Cairo que fez baixar o valor do metal precioso. A fama da
sua fortuna chegou à Europa e ficou inscrita no Atlas Catalão de 1375,
simbolizando as riquezas da África Ocidental e aliciando conquistas que
haveriam de inebriar os portugueses.
Em 1846, o filósofo francês Proudhon, um dos inspiradores
intelectuais de Antero, escrevia a Karl Marx, criticando o dogmatismo económico
e a violência como instrumento de transformação social. Ironicamente, Proudhon
é hoje considerado o pai do anarquismo, uma ideologia política tantas vezes
reduzida, no imaginário comum, ao caos e à destruição.
Vêm estes dois pequenos apontamentos históricos a propósito
das convulsões sociais a que temos assistido e daquilo que me parece ser o
cerne dessas convulsões: a desigualdade.
Enquanto fortunas individuais atingem dimensões obscenas,
gerações inteiras veem as suas esperanças destroçadas pelo custo de vida.
Enquanto Elon Musk investe milhões em influência política e carros voadores,
por toda a Europa há quem não consiga pagar uma casa, encontrar um emprego ou
obter os meios para uma vida digna.
As grandes fortunas acumulam influência sobre a política, a
informação e a tecnologia, enquanto quem trabalha se vê obrigado a sair à rua
para reclamar o mais elementar: um teto e um salário que chegue ao fim do mês.
Desde a crise financeira de 2008 e do célebre «too big to fail», tornou-se
difícil ignorar esta invertida hierarquia das urgências. Há instituições
demasiado grandes para falir e pessoas aparentemente demasiado pequenas para
merecer ajuda. A classe média, essa promessa de estabilidade das democracias
ocidentais, vai descobrindo que trabalha cada vez mais para poder viver cada
vez menos.
Cada um olhará para os acontecimentos dos últimos dias com a
luz dos seus próprios olhos. Uns verão apenas uma turba de vândalos
destruidores, hordas bárbaras de imigrantes invasores e o fim da nossa
civilização. Outros verão a luta justa de jovens e trabalhadores que se recusam
a hipotecar o futuro a uma lógica subordinada aos interesses capitalistas e
belicistas das corporações financeiras globais.
O Estado social europeu nasceu de lutas e compromissos que
fizeram da saúde, da educação, da habitação e da proteção social
responsabilidades coletivas. Hoje, o seu enfraquecimento é-nos apresentado como
uma inevitabilidade. Mas essas são escolhas políticas. Os protestos nas ruas da
Europa exprimem também o receio de perder essa segurança e a erosão desse
capital de esperança que é a base do Estado social.
A violência é sempre condenável, venha de que lado vier. Mas
condená-la não dispensa compreender as razões de quem protesta. Uma loja
destruída merece toda a nossa atenção; uma vida sem horizonte também.
Neste tempo de todas as polarizações, o essencial não é
chamar a nós a dor do outro, mas sair do nosso lugar de dor e colocarmo-nos no
lugar do outro. De quem trabalha sem conseguir o mínimo para uma vida digna. E
do pequeno comerciante que vê destruído o trabalho de uma vida. Um exercício de
empatia que exige esforço, sobretudo perante aqueles que estão do outro lado da
barricada.
Mas essa empatia também precisa de ação, de consequências
nos impostos que aceitamos pagar, nos direitos que defendemos, nas instituições
que construímos e, acima de tudo, nas desigualdades que combatemos. Enquanto
contemplarmos os novos Mansa Musa com mais admiração do que inquietação perante
a miséria que cresce à sua volta, continuaremos a confundir o esplendor de
alguns com o progresso de todos.
Só desse reconhecimento do outro, dessa consciência de que o
outro somos nós, pode nascer um mundo que seja solidário em vez de egoísta. E
que saiba abraçar em lugar de apartar.


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