Dias de chumbo
Os últimos dias ficaram marcados por um punhado de acontecimentos
que revelam, de forma particularmente impressiva, o estado sinistro a que
chegou a Região e o país.
No continente prosseguem os protestos pela habitação, entre
a surreal postura do governo, as bastonadas avulsas da PSP e uma sentença de um
tribunal que fez de uma tenda um símbolo coletivo de resistência e de nós todos
Renata Cambra.
Nas ilhas, o fim do verão IATA assinalou o início daquele
que ameaça ser um dos piores invernos turísticos das últimas décadas. Com as
ligações aéreas ao continente entregues ao arbítrio do duopólio SATA/TAP e
passagens a rondar os 400 euros, mesmo para residentes, viajar de e para as
ilhas tornou-se um luxo árabe, reservado a uns poucos privilegiados com folga
no salário para esperar pelo reembolso.
Ainda na senda dos luxos, o início do mês trouxe novos
aumentos dos combustíveis, com o gasóleo a atingir os 1,994 euros por litro,
mais 52 cêntimos do que em janeiro. Um corriqueiro depósito de cinquenta
litros, que no início do ano custava cerca de 74 euros, aproxima-se agora dos
100. Já o gás, numa terra de tantas botijas, aumentou uns astronómicos 39,1
cêntimos por quilo, apertando ainda mais o garrote ao orçamento das famílias.
Já o Governo, e os partidos que o sustentam, parece
empenhado em fingir que nada se passa e que os responsáveis por este descalabro
são todos, menos eles. Da guerra de Trump ao desquite com Montenegro, tudo o
que de mal acontece aos Açores é, na narrativa de Bolieiro, culpa de inimigos
externos. Curiosa posição para quem, nem há poucos meses, aceitou presidir à
mesa do congresso nacional do PSD, a convite do mesmo primeiro-ministro que
agora acusa de lhe apertar o “garrote financeiro”.
Bolieiro tornou-se refém da sua própria estratégia,
encurralado entre os desmandos de uma coligação moribunda e a incompetência
política dos seus secretários. Turismo e Finanças registam duas das maiores
debacles governativas das últimas décadas. A primeira, com um setor turístico
hipotecado e em queda que nem a promessa de mais milhões para a promoção conseguirá
salvar; e o segundo, que, depois de prometer défice zero e ausência de
endividamento, viu o défice regional atingir quase 300 milhões de euros em 2025
e a dívida ultrapassar os 3.900 milhões no segundo trimestre de 2026.
Também nesta viragem de mês, quais castanhas girando no
assador, o PS Açores viu anunciada, quase em ato contínuo, a abstenção no
orçamento e a continuação da sua liderança. Num processo de contornos vagamente
soviéticos, com limitações kafkianas à apresentação de listas de delegados, o
presumível líder da oposição regressou, na sua habitual ponte aérea de Lisboa,
qual Jano de duas faces, para representar um incompreensível teatro político:
de um lado, deixar passar um orçamento que considera péssimo e irrealizável; do
outro, apresentar-se como candidato a governar a Região daqui a dois anos.
Cesar, tenta iludir as hostes com grupos de independentes
que reúnem em segredo e estados gerais prometidos desde a derrota autárquica,
mas que ninguém viu nem sabe exatamente o que são. Mais depressa se organizou
um Congresso da Autonomia do que o PS Açores conseguiu apresentar uma
alternativa para si próprio, quanto mais para o futuro da Região, num partido que
infelizmente continua prisioneiro de um sobrenome.
Enquanto os dirigentes socialistas vão tratando das suas
vidinhas, aguardando, quem sabe, que o poder lhes caia nas mãos de tão podre,
os Açores vão definhando. Os preços sobem, as oportunidades diminuem e a
resignação transforma-se lentamente em revolta, num inverno que ameaça ser bem
mais longo do que o calendário anuncia. E por entre o peso do clima, o Chega,
apesar da sua liderança histriónica, ou talvez por causa dela, vai espreitando
pelas frestas, acumulando os votos da indignação e do protesto.
São de chumbo os dias que vamos vivendo.


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