sexta-feira, 5 de maio de 2017

Café Royal XVIII

Vidas

Turismo e Mar são palavrões em voga sempre que alguém, especialmente políticos e académicos, se quer referir ao futuro do país. A expansão da ZEE e o crescimento do RevPar são novos desígnios nacionais. A mineração profunda e os charters de chineses são as especiarias do século XXI. Em Portugal, como sempre, tudo é quimera e pouco efeito. Quando nos perdemos a mirar o horizonte esquecemos de ver a onda que morre em espuma nos nossos pés. No último fim-de-semana fomos flagelados pela notícia de 4 mortos em praias portuguesas. No ano anterior foram 11 no mesmo período. Ano após ano esta tragédia repete-se. Vivemos num país que se diz de turismo e de praia. A Califórnia da Europa, disseram os publicitários (os Açores o Hawai, dissemos nós…)! Mas, como se pode afirmar isso quando a mais básica segurança na orla marítima é ainda uma miragem ou, no melhor dos casos, uma sorte, a sorte de ter um surfista por perto numa praia não vigiada? A aposta num futuro que se sustente no turismo e no mar terá que passar impreterivelmente pela garantia de segurança nas praias. Tal só será possível com um corpo permanente e profissional de Nadadores Salvadores, e nem sequer é preciso ter visto o Baywatch para o perceber, mas, em Portugal, como sempre, todos assobiam para o lado, Governo, Marinha e Autarquias, sacudindo o sal dos capotes, uns por receio, outros por altivez e os últimos por avareza. Entretanto, é um país que se atrasa e são vidas que se perdem…

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Café Royal XVII

Cidades

Todas as grandes cidades são fruto do seu sítio e da sua história. Lisboa tem tanto de Tejo como de luz e cronologia. Fenícios, romanos, árabes, cruzados, navegadores, marqueses, poetas, fadistas, carbonários, marialvas, espiões, varinas cantando sardinhas, amoladores chilreando gaitas-de-beiços em passo lento, elétricos ritmando mecanicamente entre a Graça e os Prazeres… Lisboa foi feita pelo tempo e pelas suas gentes. Lisboa, cidade de luzes, de sombras que se perdem por entre as colinas, de céus azuis rendilhando janelas e varandas, de casario ondulado sobre as ruas. Mistura de gentes e de lugar. Olhando Lisboa hoje, mais de vinte anos depois de ter escolhido os Açores como o lugar da minha vida, sinto, como nunca, essa condição mutável da cidade. A Lisboa em que nasci era uma cidade dispersa, dividida entre bairros e vivências díspares. A Lisboa que deixei no final do século passado era, ainda, uma cidade atónita, em busca de si mesma, resistindo entre a consciência do passado e a euforia do futuro. Hoje, Lisboa é uma cidade plena, aberta, vibrante, feita dos seus lugares e das suas gentes, tanto as que a habitam como as que a visitam, feita, enfim, de todos os que a vivem. Numa palavra – cosmopolita. Saiba Ponta Delgada abrir-se, também, assim - com inteligência…

in Açoriano Oriental

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Café Royal XVI

Antero

Abril será sempre o mês “inicial inteiro e limpo” e, para mim, o mês cintilante, impregnado pela dádiva de uma filha e de um pai. Mas Abril é, também, o mês de Antero. 18 de abril foi o dia do 175º aniversário de Antero de Quental. Antero é o mais eterno de todos os açorianos. Nenhum outro filho destas lávicas rochas, desta húmida leiva, deste intemperado clima, deixou tão profundo legado. O homem de polémica, de política, filósofo, anarquista, ensaísta, pedagogo, homem frágil e doente, mas, ao mesmo tempo, firme e altivo. Poeta. Antero superlativamente humano, génio e santo. Porém, poucos são os que hoje nas ilhas o recordam. Vivendo num tempo de efemérides bacocas, em que qualquer epifenómeno virtual se transforma numa data, uma verdadeira celebração, os 175 anos do nascimento de Antero de Quental, é incompreensível e inaceitavelmente obliterada do calendário. Honra, no entanto, seja feita à Associação dos Antigos Alunos do Liceu, à livraria e editora Artes e Letras e à Câmara Municipal de Ponta Delgada, que com uma original edição de As Fadas assinalaram o dia, ao contrário de, imperdoavelmente, todas as instituições governamentais e legislativas da região, que por completo o esqueceram e, para maior vergonha minha, do próprio PS, que o usa quando precisa, mas não o honra quando deve.

in Açoriano Oriental

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Café Royal XV

Que futuro?

O fundamento mais profundo de toda a cultura é o exemplo dos que viveram antes de nós. Exemplo prático, exemplo cultural, exemplo vivo. Somos o que vivemos, mas somos tanto ou mais o que lemos, vemos e aprendemos. Em livros, quadros, filmes, na educação, em formas múltiplas de leitura e de interpretação dos legados da história, da arte, da literatura, da vida, do exemplo prático. Vivemos hoje um tempo inquietante e imprevisível em que a ignorância, com a sua arrogância própria, assumiu o poder. Olhando apenas as horas tudo parece seguir o seu caminho. Mas, se olharmos as décadas, o tempo vagaroso, denso, dos gestos e das suas consequências, o que vemos são os variados e colossais perigos da história humana feita impulso em vez de pensamento, feita grito no lugar da cadência. Vivemos o tempo da pulsão, cega e repetitiva. Perdemos não só o distanciamento inerente à erudição como, infelizmente, a tranquilidade do saber, próprio ou transmitido. A ironia é essa mesmo. Numa época da História em que mais precisamos de conhecimento somos governados pelo sucesso vácuo da ignorância. Não são já as notícias que são falsas, é toda a realidade. Quando o porta-voz da Casa Branca afirma que Hitler não usou armas químicas é o nosso próprio futuro que se perde.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Café Royal XIV

A vã glória…

Porque homenageamos pessoas? Porque exaltamos, de entre todos, alguns de nós? E de que forma o fazemos e com que intuito? O gesto honorífico, assuma ele a forma que tiver, é, ou deveria ser, uma valorização dos indivíduos que por mérito se superaram e cujo exemplo queremos recordar. Nas mais diversas áreas, das mais diversas formas, da arte à ciência, da bravura à abnegação, contribuindo assim para o engrandecimento de todos nós. Desde tempos imemoriais que só as figuras cimeiras se destacavam. O guerreiro, o feiticeiro, a mãe, e não necessariamente por esta ordem, foram os primeiros merecedores de exaltação, destacando-se assim nas hierarquias sociais. Mas, nesta era do efémero, já nada se sobreleva e tudo ou qualquer um pode ser homenageado. Damos comendas a arguidos de corrupção, nomes de ruas a pessoas vivas, multiplicamos pequenas honrarias em que nem escapa o cão. Numa sociedade supostamente republicana, obrigaria a ética que as prebendas fossem parcimoniosa e prudentemente ofertadas. Celebrarmos os nossos maiores é um gesto de civilização. Despender excitadamente honras, como quem faz likes no Facebook, é vulgarizar esse gesto e ridicularizar os próprios sujeitos da homenagem seja ela o batismo de um aeroporto ou o pífio branding de um avião.

quinta-feira, 30 de março de 2017

Café Royal XIII

29.03.17

Fixemos a data. O dia em que a mais antiga democracia do mundo pediu, formalmente, a saída do mais abrangente projecto de paz e concórdia da História. O abandono do Reino Unido da União Europeia deixa a Europa num cruzamento onde apenas dois caminhos se lhe apresentam: o seu fim ou a integração plena das instituições europeias. Mas, qualquer avanço neste processo terá que, primeiro, atacar um dos, talvez o mais grave de todos, cancros que corroem o interior do ideal europeu – a distância profunda que hoje separa os cidadãos europeus da realidade política da União. Acreditar numa verdadeira democracia europeia e na reforma das suas instituições terá que começar aí. A escolha por um modelo de governação que tenha como princípio base a proximidade entre eleitos e eleitores, partindo, necessariamente, do plano regional. Uma Europa de regiões, mais do que de estados, pode, no imediato, ser a única forma de salvar o sonho de uma comunidade de paz, solidariedade, desenvolvimento económico e respeito pelos povos. Uma federação de regiões poderá ser a única salvação para o ideal europeu. E nessa nova Europa os Açores, pelo simbolismo da sua história e relevância do seu posicionamento geoestratégico, terão necessariamente um papel fundamental a desempenhar.

quinta-feira, 23 de março de 2017

Café Royal XII

A Mecanização

Escola primária. Não fez oito anos ainda. Às sete e meia, oito, levantar, arranjar, vestir, pequeno-almoço, lavar os dentes, sair de casa. Na mochila pastas com papéis, quatro livros de estudo e quatro livros de fichas, mais quatro cadernos, dois estojos, muda de roupa, o ocasional brinquedo. Um pes(adel)o. Nas semanas dos testes vai e vem tudo da escola para casa, de casa para a escola. Na mão, a lancheira. Escola antes das nove. Português, matemática, estudo do meio, inglês, ginástica, sala de estudo, pelo meio lanche da manhã, almoço, lanche da tarde. Pelas três e meia, quatro, violino (duas vezes por semana), ballet (duas vezes por semana) e os cavalos à quarta ou ao sábado. Seis e meia, às vezes sete(!), chegar a casa, trabalhos de casa, banho, pijama, jantar, dentes, xixi, cama… Aos fins-de-semana, mais trabalhos de casa e mais tantas outras falsas obrigações. Depois, começa tudo de novo. Automatizamos as crianças, encarreiradas, cumpridoras, competitivas. Entretanto, nas notícias, os concursos dos professores, os rácios, os ratings, os índices, as taxas e tantas outras estéreis quezílias de adultos, esquecendo-nos que, nessa coisa chamada “sistema educativo”, o que realmente interessa são as crianças e o único indicador que nos deve preocupar é o seu grau de felicidade.