quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Café Royal CXLVI


Harold Bloom

Faleceu, esta semana, aos 89 anos, o mais importante crítico literário da contemporaneidade. Harold Bloom foi o inventor do chamado “Cânone Ocidental” – um corpo literário autónomo e robusto que, desde a antiguidade clássica aos nossos dias, com Shakespeare como vértice, representa o legado cultural da nossa civilização. Esta teoria, muitas vezes mal interpretada, levou a que fosse atacado pelos membros daquilo a que Bloom classificou como as “escolas do ressentimento”. Muitos dos que o atacaram, com base em revisionismos ideológicos e identitários, esqueciam a importância dos seus muitos contributos para a cultura, nomeadamente a tese, apresentada em “The Book of J”, de que os primeiros escritos hebraicos, que compõem o Antigo Testamento, teriam sido escritos por uma mulher. Ou, a sua teoria da “Angústia da Influência”. Numa época em que com 280 caracteres se consegue governar o mundo, Bloom merece, mais do que nunca, ser lembrado, pela sua defesa intransigente do prazer da leitura, e da importância maior que a literatura tem na expressão da condição humana ou, como o próprio referiu com relação a Shakespeare, a “invenção do humano”.


quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Café Royal CXLV


Do alheamento

Uma semana depois da passagem implacável do furacão Lorenzo pelos Açores, o Porto das Lajes, que foi arrasado pela força bruta do mar, deverá em breve retomar, parcialmente, a sua operação. Este facto deve-se à resiliência da população das Flores e, ao esforço conjunto das autoridades regionais, da Portos dos Açores e, principalmente, da Marinha Portuguesa. Não fosse a imediata prontidão, a capacidade técnica, logística e humana da Marinha e a Autonomia, per si, não teria a capacidade de tão rapidamente minimizar os danos causados pela tempestade. Este é um exemplo básico de “solidariedade nacional” e daquilo que o Estado faz pela população. No entanto, no passado Domingo, os Açorianos, pareceram alhear-se deste facto e brindaram o País com a maior taxa de abstenção de sempre. O Presidente do PS fez questão de dizer, na noite das eleições, que a abstenção, hoje, nos Açores, é inaceitável. Mas, quando a população parece desrespeitar por completo aquilo que o País faz por si e culpa os políticos por esse alheamento, como explicou um estudo que foi engavetado no parlamento regional, e os próprios políticos estão narcisicamente enleados nas suas fotos no Facebook, a esperança de que se possa mudar esta realidade é quase nula…


quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Café Royal CXLIV


Votar

Ao contrário do que seria de esperar, a campanha eleitoral, afinal, foi tudo menos sensaborona. Tivemos um António Costa titubeante entre a ganância da maioria absoluta e as sonsices habituais de quem lhe dói as costas. Um Rui Rio sempre a crescer e uma Assunção a perder a crista. Depois, tivemos essa novela pifara de Tancos: umas forças armadas relapsas, ladrões de pacotilha que se lixam por 34 mil euros, polícias e magistraturas em guerrinhas de manjerona, ministros idiotas que trocam sms inenarráveis com políticos jovens, mas que tresandam a velhas formas de fazer política. Enfim, um retrato exacto do Portugal de hoje. E, não esquecer, a melhor alcunha desde o famigerado “Cherne”, o “papagaio-mor do reino”. Não se pode dizer que não foi divertida, infelizmente é rir para não chorar. A acreditar nas últimas sondagens, Domingo, os portugueses vão indicar a António Costa uma Geringonça 2.0. Até os eleitores do PS não querem uma maioria absoluta e isso devia servir de lição para a direcção do partido. As incógnitas são os novos partidos e o peso do PC. Quanto à direita, mesmo que Rio se aguente, os próximos 4 anos serão de total e completa refundação. Mas, para já, é preciso votar.


quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Café Royal CXLIII


A letra da lei

No último mês de Julho veio a público o rocambolesco episódio das golas antifumo. O que estava em causa, entre outras coisas, era o envolvimento de um Secretário de Estado na contratação de uma empresa detida por familiares de um adjunto. Ao melhor jeito da saloiice nacional, o PS e o Governo ensaiaram uma fuga para a frente, reclamando que “seria um absurdo a interpretação literal” de uma lei de 1993, que até hoje nunca fora contestada por nenhum governo ou partido. Vai dai, é pedido um parecer, pelo Primeiro-ministro, ao Conselho Consultivo da Procuradoria Geral da República, para o “completo esclarecimento”, sobre a letra da lei, da já famosa Lei das Incompatibilidades dos Titulares de Cargos Públicos. Ora, o que torna tudo isto ridículo não é as golas pegarem fogo, ou a tentativa de interpretação a gosto das leis, nem sequer a ostensiva e inescrupulosa falta de ética dos nossos governantes, o que torna tudo isto verdadeiramente absurdo é o esquizofrénico facto de, na mesma semana, o mesmo Ministério Publico, constituir como arguido o Secretario de Estado, enquanto o seu Conselho Consultivo acha que a lei não pode, afinal, ser lida literalmente.


quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Café Royal CXLII


Partidocracia

O meu pendor romântico levou-me sempre a acreditar que, numa democracia, os partidos são o garante da pluralidade democrática e do debate ideológico, condições fundamentais para a sobrevivência desse regime que “é a pior de todas as formas de governo, à excepção de todas as outras”. Mas, as nossas democracias estão hoje feridas de morte. E o problema não é a abstenção e o alheamento dos cidadãos da vida política, nem é, tão pouco, a esquizofrenia ideológica que faz do PSD um partido de esquerda e do BE um partido social-democrata, nem sequer é a ameaça do populismo. Antes de tudo isto, o verdadeiro cancro das nossas democracias, é que os partidos políticos, que são o seu centro nevrálgico, não são, eles próprios, instituições democráticas. Nos partidos não há liberdade de pensamento, nem de opinião, nem, sobretudo, democracia interna. Há dias, no calor de uma discussão entre amigos, defendi que o objectivo dos partidos devia ser o bem comum, ao que alguém cínica, mas realisticamente retorquiu que não, que o objectivo dos partidos políticos é ganhar eleições. Enquanto assim for, o regime em que vivemos é uma partidocracia e esse é que é o verdadeiro problema.


quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Café Royal CXLI


Sanguessugas

No meio do ruído da campanha eleitoral e das suas retóricas “linhas vermelhas” uma notícia extremamente importante passou mais ou menos despercebida ao cidadão comum. Ao fim de sete anos de investigação e litigância, a Autoridade da Concorrência, um organismo que se julgava inexistente em Portugal, multou em 225 milhões de euros 14 instituições bancárias, por práticas susceptíveis de constituir cartelização. De acordo com a Autoridade da Concorrência, durante cerca de 11 anos, entre 2002 e 2013, no auge da crise financeira, os Bancos entretiveram-se a partilhar entre si informação sensível sobre condições de crédito, valor dos spreads, volume de investimentos, etc., eliminando deste modo a sã e livre concorrência e prejudicando objectivamente os consumidores. Se juntarmos a isto os perto de 25 Mil Milhões de euros de todos nós que já foram injectados no sistema financeiro, ficamos com uma melhor percepção de como os bancos se transformaram em verdadeiras sanguessugas do sistema, vivendo, como parasitas, à custa do sangue, do suor e das lágrimas de todos nós. Talvez, mais importante do que pensar na reforma do nosso sistema político, seja pensarmos na higienização do nosso sistema financeiro, a bem da Democracia.


quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Café Royal CXL


Maiorias

A viagem do Partido Socialista, pelos atribulados caminhos da nossa entradota democracia, nem sempre foi fácil. Entre 75 e 85 Soares viu-se encurralado entre uma extrema esquerda altiva e um centro-direita envergonhado. Em 6 eleições legislativas o PS ganhou 3, sempre abaixo dos 40% dos votos, passou pelo embaraço das expressivas vitorias da AD em 79 e 80 e culminou com o trauma cavaquista de 85 e de 87, em que o PSD obteve mais de 50%. Soares rumaria a Belém e Portugal sofreria Cavaco durante os próximos 10 anos. Depois veio o pântano de Guterres, a tanga de Durão Barroso e o desmaio de Santana Lopes, até culminarmos nos 45% de Sócrates, uma bancarrota e a PàF que, como todos os amantes de banda desenhada sabem, significa uma brutal estalada na cara. Durante estes 45 anos, dois grandes dogmas imperaram sobre o xadrez político nacional – a Direita, quando precisa, une-se e as Esquerdas não. As eleições de 2015 e consequente Geringonça marcaram, esperávamos nós, o fim deste “nó górdio”. Mas, e pelo que temos visto desta campanha eleitoral, o PS, infelizmente, não aprendeu nada nestes 4 anos e prefere a ganância de uma putativa maioria-absoluta à continuidade de uma maioria de esquerda. É pena.