quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Café Royal CL


Interstellar

É Novembro e é Verão. Dias longos de sol quente e águas lisas e fins-de-tarde de horizontes infinitos e alaranjados, espécie de recompensa para o Verão que não existiu. A lentidão deste Novembro contagiou-nos a todos, até aos políticos, que assam presidentes de conselhos de administração de companhias aéreas como se assassem castanhas. A quietude dos dias ensolarados só contrasta com a movimentação subterrânea das placas tectónicas que se faz sentir na emergência dos sismos. Mas, não há urgências este Novembro. O governo continua a trabalhar, a oposição a pensar, o parlamento a protelar e os prazos para a conclusão da Casa da Autonomia a prorrogar. Como vai doce este Novembro. Lá por Lisboa igual. Continuamos imunes à tragédia de um recém-nascido deitado ao lixo por um sem-abrigo a quem toda a sociedade trata como lixo. Na assembleia pretendia-se calar quem acabou de ganhar voz para falar. No governo, o salário mínimo sobe 5% enquanto a produtividade estima-se que só consiga subir 3%. Lá por fora, Espanha voltou a votar, a América a Impeachmentar, a Voyager 2 chegou ao espaço interestelar, mas por aqui e por enquanto o sol de Novembro continua a brilhar.


quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Café Royal CXLIX


CTRL+ALT+DEL

A menos de um ano de eleições, a região vive dias conturbados. O PSD está em estado catatónico. Suspenso na indefinição sebastiânica de Bolieiro que, num acto de incompreensível cobardia política, não foi ainda capaz de dizer se aceita ou não ser presidente do partido. Cada dia que passa nessa letargia, o estado comatoso do PSD agrava-se. Mas, ao mesmo tempo, PS e Governo vêem-se confrontados com crises e erros, numa sucessão de calamidades, que mais parece um colorido e electrizante efeito dominó. O Governo, refém da Vice-presidência, transformou-se numa rede de jeitos aos amigos e de represálias àqueles que, por delito de opinião, se julga serem os inimigos. Falta desígnio e estratégia para a Região. Antigamente, quando os computadores bloqueavam o truque era recorrer às teclas CRTL+ALT+DEL para reiniciar a máquina. Resta saber se Vasco Cordeiro, que é, ainda, o verdadeiro capital político do PS, conseguirá sair da sua imensa mansidão e crónica indecisão para dar esse choque no sistema. Os riscos de deixar tudo como está, esteja ou não Bolieiro no leme da Nau Catrineta que se tornou o PSD, são ver escapar a maioria absoluta e, debalde, entregar o PS aos carreiristas.


quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Café Royal CXLVIII


Protestos

Nos últimos tempos, um pouco por todo o mundo, os cidadãos, ou, como se diz em ciência política, o Povo, saíram à rua: os independentistas na Catalunha, os “coletes amarelos” em França, os democratas em Hong Kong, os reformistas no Chile, os confundidos, de um lado e do outro, do Brexit, e os órfãos das alterações climáticas à escala global. Numa Era de indignações digitais, de petições à lá minute, de revoltas de Twitter, perceber que as sociedades, as comunidades, ainda são capazes de se organizar e dar a cara em protestos públicos vivos e corajosos é um motivo de satisfação para qualquer democrata. O protesto e a sua manifestação pública são uma forma de expressão da vontade popular e, não é preciso saber de filosofia, para compreender que a vontade popular é a raiz fundamental de toda e qualquer Democracia. Num mundo com cada vez mais desigualdades, entre ricos e pobres, entre geografias e continentes, entre eleitos e eleitores, até mesmo entre gerações, a Voz do Povo, esteja ela em ruído na rua ou no falso silêncio da abstenção, assume cada vez maior importância e não vale a pena fazer de conta que não se está a ouvir ou, pior, reagir com despeito e arrogância àquilo que não se gosta de ouvir…


quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Café Royal CXLVII


Cataclismo

O crescimento recente do Turismo deveu-se, em larga medida, a dois factores fundamentais: marketing e aviões. Ryanair, Easyjet e Delta permitiram um incremento crucial nas acessibilidades que, em Turismo, como sabemos, para um destino arquipelágico como o nosso, é tão vital como o oxigénio é para os pulmões. Em paralelo, a promoção nos mercados e o aumento da notoriedade tornou os Açores atractivos para os potenciais turistas. Porém, nos últimos anos, o Governo e a Secretaria do Ambiente, Energia e Turismo (só a hierarquia do nome diz tudo…), entretidos a brincar à sustentabilidadesinha, conseguiram, não só destruir por completo a promoção turística do destino, entregando esse dossier decisivo na mão de meia dúzia de empresários como, também, deixar que a Delta abandonasse o destino, tornando-nos reféns da Ryanair, da TAP e da moribunda da SATA. Não havendo uma explicação, ou responsabilização ou, até, uma alternativa para este autêntico cataclismo não resta, lamento, outra saída à Sra. Secretária, e à direcção da ATA, já agora, que não seja a demissão.


quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Café Royal CXLVI


Harold Bloom

Faleceu, esta semana, aos 89 anos, o mais importante crítico literário da contemporaneidade. Harold Bloom foi o inventor do chamado “Cânone Ocidental” – um corpo literário autónomo e robusto que, desde a antiguidade clássica aos nossos dias, com Shakespeare como vértice, representa o legado cultural da nossa civilização. Esta teoria, muitas vezes mal interpretada, levou a que fosse atacado pelos membros daquilo a que Bloom classificou como as “escolas do ressentimento”. Muitos dos que o atacaram, com base em revisionismos ideológicos e identitários, esqueciam a importância dos seus muitos contributos para a cultura, nomeadamente a tese, apresentada em “The Book of J”, de que os primeiros escritos hebraicos, que compõem o Antigo Testamento, teriam sido escritos por uma mulher. Ou, a sua teoria da “Angústia da Influência”. Numa época em que com 280 caracteres se consegue governar o mundo, Bloom merece, mais do que nunca, ser lembrado, pela sua defesa intransigente do prazer da leitura, e da importância maior que a literatura tem na expressão da condição humana ou, como o próprio referiu com relação a Shakespeare, a “invenção do humano”.


quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Café Royal CXLV


Do alheamento

Uma semana depois da passagem implacável do furacão Lorenzo pelos Açores, o Porto das Lajes, que foi arrasado pela força bruta do mar, deverá em breve retomar, parcialmente, a sua operação. Este facto deve-se à resiliência da população das Flores e, ao esforço conjunto das autoridades regionais, da Portos dos Açores e, principalmente, da Marinha Portuguesa. Não fosse a imediata prontidão, a capacidade técnica, logística e humana da Marinha e a Autonomia, per si, não teria a capacidade de tão rapidamente minimizar os danos causados pela tempestade. Este é um exemplo básico de “solidariedade nacional” e daquilo que o Estado faz pela população. No entanto, no passado Domingo, os Açorianos, pareceram alhear-se deste facto e brindaram o País com a maior taxa de abstenção de sempre. O Presidente do PS fez questão de dizer, na noite das eleições, que a abstenção, hoje, nos Açores, é inaceitável. Mas, quando a população parece desrespeitar por completo aquilo que o País faz por si e culpa os políticos por esse alheamento, como explicou um estudo que foi engavetado no parlamento regional, e os próprios políticos estão narcisicamente enleados nas suas fotos no Facebook, a esperança de que se possa mudar esta realidade é quase nula…


quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Café Royal CXLIV


Votar

Ao contrário do que seria de esperar, a campanha eleitoral, afinal, foi tudo menos sensaborona. Tivemos um António Costa titubeante entre a ganância da maioria absoluta e as sonsices habituais de quem lhe dói as costas. Um Rui Rio sempre a crescer e uma Assunção a perder a crista. Depois, tivemos essa novela pifara de Tancos: umas forças armadas relapsas, ladrões de pacotilha que se lixam por 34 mil euros, polícias e magistraturas em guerrinhas de manjerona, ministros idiotas que trocam sms inenarráveis com políticos jovens, mas que tresandam a velhas formas de fazer política. Enfim, um retrato exacto do Portugal de hoje. E, não esquecer, a melhor alcunha desde o famigerado “Cherne”, o “papagaio-mor do reino”. Não se pode dizer que não foi divertida, infelizmente é rir para não chorar. A acreditar nas últimas sondagens, Domingo, os portugueses vão indicar a António Costa uma Geringonça 2.0. Até os eleitores do PS não querem uma maioria absoluta e isso devia servir de lição para a direcção do partido. As incógnitas são os novos partidos e o peso do PC. Quanto à direita, mesmo que Rio se aguente, os próximos 4 anos serão de total e completa refundação. Mas, para já, é preciso votar.