quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Café Royal CLV


Pérolas…

Uma das maiores riquezas dos Açores é a sua História. Infelizmente, esse riquíssimo património tem sido ostensivamente negligenciado pelos próprios açorianos. A gesta do povoamento e dos descobrimentos; a resistência a Castela; a sanha dos corsários; o sonho Liberal; a época de ouro da Laranja; o 2 de Março de 1895; a baleação; os Clippers; os cabos submarinos; as duas grandes guerras; os jactos; a epopeia humana de séculos de emigração e, o seu oposto, a resiliência e prosperidade nas ilhas: são quase 600 anos de História que, salvo raríssimas excepções, são largamente desconhecidos da população e indesculpavelmente vilipendiados pelos poderes públicos. Não se valoriza a documentação, não se aposta na musealização e não se investe na promoção. Ao invés, betoniza-se, bunkeriza-se, marina-se e, de um modo geral, condena-se ao abandono e ao esquecimento toda uma incomensurável riqueza que abunda em cada uma das nove ilhas. O recente episódio do afundamento propositado de um navio ao largo de Santa Maria, quando por todos os Açores ou, em particular, ao largo da Terceira jaz esquecido, por exemplo, o HMS Revenge, é só mais uma triste demonstração de quão pequena é a ambição de tão rico povo.


quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Café Royal CLIV


Tudo normal,

Vivemos as semanas dos Planos e Orçamentos. Pela República, Centeno e Costa multiplicam-se no deve e haver das negociações e no toma-lá-dá-cá das reivindicações. Por cá, ao que sabemos, pelas notícias e pelos Facebook dos deputados, no meio das fotos narcísicas deles próprios, lá foi aprovado, na Horta, mais um Plano e Orçamento para a Região. Passam os anos e os planos e aquilo que devia ser um documento fundamental para a governação transformou-se numa praxe banal que enche o cidadão comum de tédio e enfado. Na verdade, qualquer um consegue intuir facilmente a vacuidade cada vez maior destes documentos, feitos em copy paste de um ano para o outro, agravados pela não execução e pelas cativações. Formatados os Words e os quadros de Excel, cheias as pens, pelos tarefeiros de serviço, o documento é depois salteado nas frigideiras dos parlamentos, acrescentando-se-lhe meia dúzia de temperos avulsos, à esquerda e à direita, ou ao estilo da Madeira ou da Terceira, até se apurar uma requentada roupa-velha. Já a seguir é Natal, o Centeno há de ir-se embora e por cá teremos mais umas eleições. Tudo normal, dentro da anormalidade…


quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Café Royal CLIII


(Des)planeamento

O Governo anunciou recentemente, sem pré-aviso ou consulta pública, um projecto de intervenção na cumeeira da Lagoa do Fogo. Acto contínuo, o PS fez gala em anunciar a introdução no Plano e Orçamento de uma verba de cem mil euros para uma “intervenção de ordenamento paisagístico na zona da mata da Lagoa do Congro”. O que é irónico é a falta de planeamento disto tudo. Olhando para as ilhas, é fácil constatar a imperiosa necessidade de planear e organizar o território para melhor o adaptar à evolução demográfica e ao crescimento do turismo. A Região precisa, urgentemente, de um plano estratégico integrado, que permita qualificar e, principalmente, aumentar e diversificar a oferta. O drama é que não há dados concretos sobre fluxos, sobre carga, sobre nada. Ora sem dados não pode haver planos, logo anunciam-se medidas avulsas em zonas que, se calhar, deveriam ser as últimas a ser intervencionadas. O que o governo devia estar a fazer era a promover os estudos que caracterizassem o estado actual do território e a promover acções que qualifiquem o existente para depois então poder pensar em intervir nos pontos da paisagem que ainda estão intactos, isso sim era sustentabilidade.


in Açoriano Oriental

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Café Royal CLII


Ir devagar

Vivemos num tempo cada dia mais acelerado. Tudo passa à velocidade do curto instante, da voracidade do consumo, do flash da selfie. A sociedade de consumo tornou-se autofágica, consumindo tudo, como Gargântua, até, quem sabe, um dia, se consumir a si própria. No mundo capitalista então, esta tendência é ainda mais expressiva. Empresas e consumidores vivem na ânsia do novo modelo, do novo produto, da nova grande ideia que irá revolucionar o mundo e fazer chover cifrões e notas de euros sobre as contas bancárias do próximo “unicórnio” digital. Também na política, o rolo compressor do momento mediático arrasa o pensamento, a análise e a estratégia. Os partidos e os governos atropelam-se a si próprios, como estafetas bêbados, tropeçando nos seus próprios pés. Citando o inimitável personagem dos anos 80 Ferris Bueller “a vida passa demasiado depressa, se não pararmos e olharmos em volta de vez em quando, acabamos por perdê-la.” Às vezes o mais importante a fazer na vida é ir devagar, parar para pensar. Olhar o que nos rodeia e perceber que o mais inovador é precisamente preservar o passado, manter uma tradição, cuidar do que nos é dado para que possa, um dia, ser, também, da próxima geração.


quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Café Royal CLI


É só uma ideia

Pressionado pela aparição de Bolieiro no seu retrovisor, o PS resolveu acelerar o seu calendário político e deu à luz, prematuramente diria eu, um fórum denominado “Todos Contam! Açores Primeiro”, convidando-nos a ter uma ideia para a região. Pensar os Açores é, certamente, uma tarefa nobre e, quem sabe até, necessária, só que é chão que já deu uvas. O próprio PS anda nisso há décadas, desde o Fórum Açoriano e o SOS Lagoas até ao “A Força da Autonomia somos todos nós” de há quatro anos atrás, lembram-se? O melhor que o PS podia fazer neste momento, para além de governar, e governar bem, já agora, era pegar nos seus 6 programas de governo e verificar, um a um, tudo o que foi feito e o, provavelmente muito, que ficou por fazer. Mas, se o que se pretende são ideias, deixo desde já aqui uma: Acabar com a triste sina de nove ilhas de costas voltadas umas para as outras e unir definitivamente os açorianos em torno de um projecto comum de desenvolvimento económico, social e cultural. O grande desafio por cumprir da autonomia é a concretização plena de uma verdadeira noção de identidade arquipelágica açoriana, é a materialização da açorianidade.


quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Café Royal CL


Interstellar

É Novembro e é Verão. Dias longos de sol quente e águas lisas e fins-de-tarde de horizontes infinitos e alaranjados, espécie de recompensa para o Verão que não existiu. A lentidão deste Novembro contagiou-nos a todos, até aos políticos, que assam presidentes de conselhos de administração de companhias aéreas como se assassem castanhas. A quietude dos dias ensolarados só contrasta com a movimentação subterrânea das placas tectónicas que se faz sentir na emergência dos sismos. Mas, não há urgências este Novembro. O governo continua a trabalhar, a oposição a pensar, o parlamento a protelar e os prazos para a conclusão da Casa da Autonomia a prorrogar. Como vai doce este Novembro. Lá por Lisboa igual. Continuamos imunes à tragédia de um recém-nascido deitado ao lixo por um sem-abrigo a quem toda a sociedade trata como lixo. Na assembleia pretendia-se calar quem acabou de ganhar voz para falar. No governo, o salário mínimo sobe 5% enquanto a produtividade estima-se que só consiga subir 3%. Lá por fora, Espanha voltou a votar, a América a Impeachmentar, a Voyager 2 chegou ao espaço interestelar, mas por aqui e por enquanto o sol de Novembro continua a brilhar.


quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Café Royal CXLIX


CTRL+ALT+DEL

A menos de um ano de eleições, a região vive dias conturbados. O PSD está em estado catatónico. Suspenso na indefinição sebastiânica de Bolieiro que, num acto de incompreensível cobardia política, não foi ainda capaz de dizer se aceita ou não ser presidente do partido. Cada dia que passa nessa letargia, o estado comatoso do PSD agrava-se. Mas, ao mesmo tempo, PS e Governo vêem-se confrontados com crises e erros, numa sucessão de calamidades, que mais parece um colorido e electrizante efeito dominó. O Governo, refém da Vice-presidência, transformou-se numa rede de jeitos aos amigos e de represálias àqueles que, por delito de opinião, se julga serem os inimigos. Falta desígnio e estratégia para a Região. Antigamente, quando os computadores bloqueavam o truque era recorrer às teclas CRTL+ALT+DEL para reiniciar a máquina. Resta saber se Vasco Cordeiro, que é, ainda, o verdadeiro capital político do PS, conseguirá sair da sua imensa mansidão e crónica indecisão para dar esse choque no sistema. Os riscos de deixar tudo como está, esteja ou não Bolieiro no leme da Nau Catrineta que se tornou o PSD, são ver escapar a maioria absoluta e, debalde, entregar o PS aos carreiristas.