quinta-feira, 19 de março de 2020

Café Royal CLXVI


Depois do vírus

Em silêncio, de forma capciosa, sibilina e quase imperceptível, o vírus foi-se espalhando calmamente, contaminando o mundo com a sua imparável e definitiva virulência. À iminência da morte seguiu-se o pânico e o caos. Vivemos agora debaixo da influência do medo, da ascendência do pavor. Não são só os corpos o que o vírus contamina, é a própria tessitura da sociedade. É a argamassa da comunidade que é corroída e se esboroa, de dia para dia. Estamos em guerra contra um inimigo invisível, dizem-nos solenemente os estadistas do momento e decretam medidas, isolamentos, quarentenas. Fechem as fronteiras, parem o mundo, grita o coro das redes sociais. Tanto ou mais do que uma crise de saúde pública, esta é uma crise de representação política e de modelo económico, é uma crise civilizacional. É todo o mundo que construímos, desde a revolução industrial, que está a desabar sob os múltiplos efeitos da contaminação. O mundo, tal como o conhecíamos, perdeu o sentido. Não há normalidade possível porque a normalidade é, ela própria, uma parte do vírus. A pergunta a que todos teremos de responder é que mundo queremos que nasça desta morte? Que futuro queremos para amanhã, depois do vírus?


quinta-feira, 12 de março de 2020

Café Royal CLXV


Corona

Para lá das questões imediatas – contenção, tratamento, cura – a crise do Covid-19 levanta outras interrogações, com as quais nos devíamos, também, inquietar. A mais dramática, é a constatação de que não há reação para o imponderável. Perante o desconhecido não há resposta, não há protocolo pré-estabelecido. Ansiamos por controlo e a verdade é que ele não existe. Perante o disseminar do vírus, cujas consequências vão muito para lá da emergência médica, o mundo vai atabalhoando-se entre o isolacionismo totalitário chinês, a arrogância ignorante americana, o latino-laxismo italiano e o pânico mediático global. Por cá, vamos pendulando entre a hipocondria histérica do Prof. Marcelo e a desorientação de um governo que não sabe o que fazer. Num mundo interligado exigem-se respostas globais e, principalmente, solidárias. Perante a brutalidade da pandemia, mais importante do que fechar fronteiras, ou abrir linhas de crédito, seria uma consciência mundial de que só com confiança e entreajuda é que se pode conter e tratar os vários contágios do vírus. Talvez então, Corona volte a ser, apenas, nome de uma boa cerveja mexicana.


quinta-feira, 5 de março de 2020

Café Royal CLXIV


Peixes voadores

O Surrealismo é um movimento artístico que nasceu em Paris nos anos 20. Os surrealistas, liderados por André Breton e inspirados nas teorias psicanalíticas de Freud, defenderam enfaticamente uma Arte alicerçada no inconsciente, em detrimento da lógica do racionalismo. Para os surrealistas, a Arte deveria rejeitar os valores tradicionais e abraçar o sonho e a imaginação com o intuito de libertar o Homem de uma existência meramente utilitária. De acordo com Breton: “aquele que não conseguir visualizar um cavalo a cavalgar um tomate é um idiota.”! Esta semana, o Açoriano Oriental deu eco à insatisfação de alguns comerciantes de peixe com a reduzida capacidade de carga dos novos A321LR neo da SATA que impossibilita a exportação atempada para os mercados continental e norte-americano. Pressupor que a SATA, que está na situação em que está, deveria ter como foco o transporte de pescado, é algo que só pode ser descrito como surrealista. “Novos aviões dificultam transporte de peixe”, dizia a parangona (em executiva, acrescento eu). É o chamado Surrealismo Açórico! Nem Breton faria melhor…


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Café Royal CLXIII



Era o fim da primeira grande guerra. Um pouco por toda a França, milhares de jovens soldados, debilitados, malnutridos e intoxicados, encavalitavam-se, uns sobre os outros, nas trincheiras e nos hospitais. Em Étaples-sur-mer, norte de França, o exército expedicionário inglês montou o seu principal hospital de campanha. Mais de 100 mil soldados fazem trânsito em Étaples diariamente. Para prover à alimentação, foi improvisada uma suinicultura e milhares de galinhas são trazidas dos campos e vilas mais próximas. No Inverno de 1917, os médicos relatam os primeiros casos de uma misteriosa e incurável doença respiratória que se dissemina rapidamente. Em cada espirro ou convulsão de tosse, meio milhão de partículas virais são espalhadas pelo ar. Durante os cerca de dois anos e meio seguintes, perto de 30 Milhões (!) de pessoas, em todo o mundo, perderam a vida, naquela que foi a maior pandemia da história contemporânea. Curiosamente, a região do globo menos afetada foi a China. Até ontem, 77931 pessoas, em todo o mundo, estavam infetadas com coronavírus. Até ontem, 2618 mortes e destas apenas 23 fora da China, mas, quem veja as notícias parece que estamos a viver uma nova Gripe Espanhola.



quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Café Royal CLXII


Polarização

Os sinais estavam todos lá, mas, fiéis aos nossos proverbiais brandos costumes, achámos que estávamos imunes às pandemias do momento. Populismo, extremismo, xenofobia, autoritarismo e toda uma outra panóplia de vírus, que se expandiram pelo mundo, nas últimas décadas, em proporção maior que a do Coronavirus, aos quais nós, uns à beira-mar plantados, outros no meio do mar alçados, julgámos, placidamente, estar a salvo de qualquer risco de contaminação. Eis que um dia, uma sondagem dá 6% ao partido da extrema-direita, um jogador de futebol é expulso do campo pela selvajaria xenófoba de uma turba de energúmenos e o país político e social entrincheira-se na discussão maniqueísta e estéril da “dignidade” da morte. E, de repente o país deixou de ter um centro para ter dois polos: o branco e o preto, os bons e os maus, os que defendem a vida até ao último suspiro e os que querem exterminar todos os velhinhos. A democracia é o sistema político que nos impele à concertação, ao diálogo e, acima de tudo, ao aceitar do outro. A verdadeira Democracia não é a hegemonia das maiorias, mas a protecção que dá às minorias que vivem dentro de si. Perder isso é perdermo-nos a nós próprios.


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Café Royal CLXI


Ah, o Amor!

Precisará o amor de um dia? Ou de um Santo? Precisará o amor de uma celebração anual, revestida de montras repletas de peluches, chocolates e lingeries de melhor ou pior gosto? Se o amor for só comércio, o coração não será mais do que uma caixa registadora. Amor é dádiva, não é penhor. Amor não é cambio, nem valor. Não, o amor não se vende, não se materializa num qualquer cartão colorido, nem num ramo de flores, mesmo que sejam rosas. O amor é transe, não é transacção. O amor é um olhar, um ensejo, é a doce ternura de um beijo, um leve toque de mão. O amor é uma borboleta no estômago e um sorriso. Uma vergonha tímida e uma coragem gigante. O amor é um arrebatamento súbito e uma promessa para a vida. O amor é desapego. O amor não tem horário, nem dia no calendário. O amor não tem um dia, amor que é amor é-o a cada dia. O amor não se celebra uma vez por ano como se fosse um feriado, ou uma pausa, ou o “meter um Artigo”. O amor é um instante de luz que cega e espanta. O amor é uma chama que nunca se apaga. E, é preciso cuidar do amor em cada momento, dia-a-dia e sempre, todos os dias do ano, até ao último sopro da vida.


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Café Royal CLX


Steiner

Desde o início desta crónica, Janeiro de 2017, que George Steiner é, e continuará sempre a ser, uma figura tutelar deste “café”. Nesse primeiro texto socorri-me da bela imagem de Steiner de que a “ideia de Europa” está alicerçada no hábito europeu de frequentar cafés e, principalmente, de, nesses cafés discutir e debater ideias livremente e no choque benigno entre diferentes correntes literárias, visões científicas ou opiniões políticas. Uma Europa contruída por dois pilares fundamentais – liberdade de pensamento e respeito pelo outro. A Europa das Ideias. Só possível, aliás, pela existência dessa persona, que o próprio Steiner representava e da qual era um dos últimos verdadeiros exemplares, o Intelectual. Steiner dedicou a sua vida a duas atividades em vias de extinção: a leitura e o pensamento. Mas sempre com um profundo respeito pelas ideias, mesmo que estas fossem antagónicas entre si. Num tempo em que a excessiva especialização, a abstração rápida e o entrincheiramento ideológico se tornam sinónimos de cultura, a noção de que é preciso perder tempo a pensar é um dos grandes legados de George Steiner, e um saudável exercício que continuaremos a cultivar aqui, no Café Royal.